2.8.05

_ Qual lugar mais bonito em que você já esteve?

Ah, respiro aliviada! Livre de toda aquela coisa horrível que estava grudada em cada poro de meu corpo, em cada espaço do meu coração. Tempestade foi-se de vez, abrindo lugar para um céu maravilhosamente límpido e azul. Espero que dure... Acho que gritar e chorar faz um bem danado no final, pois expulsa tudo que há de ruim no corpo e na alma. Vivo dias mais tranquilos, mais seguros e felizes. Esperançosa e determinada, como gosto de estar. Porque vivemos de tempestades e calmarias. E esse é meu período de calmaria, enfim.

_ " ... estava insensível às coisas do mundo. "

Minha personagem ao contrário, vive sua fase de tormenta. Final eu diria. A tempestade que não vai embora nunca, o momento em que se desiste de lutar, respira-se fundo e não se sente mais nada. Que será dela?

Mil Horas
* Parte 3 *
Não tomou seu café da manhã. Seu estômago não sentia fome e estava um pouco enjoado. Tinha que sair rápido, pois já estava atrasada para pegar seu ônibus. Mas não se importava... Um ônibus a mais ou a menos, dez ou quinze minutos de atraso não fariam diferença. Aliás, nada parecia fazer diferença aquele dia... O trânsito não a irritou, pois estava insensível às coisas do mundo.
Ao pegar o elevador e apertar o botão do décimo andar, lembrou-se que odiava seu emprego: as pessoas, o lugar apertado e barulhento, a quantidade enorme de tarefas e aquele chefe sempre mal humorado. Sua função não era má, mas todo o resto mal podia suportar. Talvez se só fosse enfiar a cabeça no trabalho... Mas tinha que conviver e a convivência era sempre problemática. Naquele dia mesmo, ouviria os comentários maldosos sobre sua aparência insone diretamente de sua “inimiga” de trabalho, sempre arrogante e prepotente. Também havia a bronca que levaria do chefe pelo atraso e como ouvir sua voz molenga e pastosa reclamando pelos malditos quinze minutos não bastasse, ainda receberia tarefas extras “pra ontem”, como ele gostava tanto de dizer e dar risada, como se aquela frasezinha inútil tivesse alguma graça. Só havia uma pessoa que considerava, sentava-se ao seu lado em uma mesa organizada e impecável. Era uma mulher com um coração bondoso e extremamente tranqüila.
A porta do elevador se abriu. Ela respirou fundo e entrou cabisbaixa, desejando que ninguém percebesse sua quase inexistência.
_ Quinze minutos de atraso, mocinha.
_ É, eu sei. Desculpa, o ônibus atrasou.
A bronca não se prolongou e ela agradeceu. Sentou-se pesadamente na cadeira e ligou o computador.
_ Bom dia!
_ Oi.
_ Que aconteceu?
_ Não dormi a noite.
_ Só isso mesmo? Quer conversar?
Ela sempre tinha essa atitude preocupada. Quantas vezes não a vira com aquele rosto pálido triste e não se sentara com um sorriso pra ouvir-lhe as reclamações? Mas não, ela não queria conversar, explicar os olhos inchados, simplesmente queria deixar tudo trancado no apartamento junto com a toalha e o xampu.
Continua ...

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