21.10.09

Esse conto foi escrito para o concurso de um blog e o tema era: O Lado Negro da Mente Humana. Depois de muito quebrar a cabeça e de uma leve insolação, ele surgiu rs. Infelizmente não ganhei o concurso, mas está aí para quem quiser saborear um pouco de maldade.

Quando a Caixa se Abre.

Adriana era uma mulher pacata. De rosto doce a maternal, trejeitos de borboleta. Um exemplo de mãe e esposa, invejável. Era o orgulho do marido, que a chamava de “meu bem” quando chegava em casa, beijava-lhe carinhosamente o rosto enquanto afrouxava a gravata e contava-lhe sobre seu dia. Os filhos, lindos como anjos, não podiam ser melhor tratados, com todo mimo de uma verdadeira rainha do lar. No trabalho, como secretária, era muito bem quista por todos, sempre eficiente, gentil, olha gente, fiz um café fresquinho para nós! Adriana era uma linda caixinha de jóias, talhada a marfim e ouro branco.

Mas sendo uma caixa, tinha seu conteúdo escondido debaixo da tampa e este não era toda benevolência que era esperada. Ninguém sabia, e nem ela percebia por vezes, o que havia dentro de seu coração. Ela odiava. Cem vezes por dia, era uma explosão de ódio por debaixo do decote discretíssimo.

Do trabalho, tinha verdadeira repulsa. Das meninas, mais jovens e mais bonitas que ela, cheias de energia e futilidade, saracoteavam aqui e ali, fofoquinhas, intrigas, coisa pequena, mesquinha, muitas oferecendo sua juventude ao chefe bonitão em troca de um aumento. Derretiam-se todas por ele, que nem era tudo aquilo, pois ela sabia, enquanto as jovenzinhas se arrumavam, metendo-se em mini saias e saltos altos, ela tinha provado antes, em silêncio. E tinha detestado, um fraco, prepotente, grosseiro. Só de pensar nele, subia-lhe o ódio, o estômago revirava-se.

O marido, um frouxo. Como pudera escolher tão mal? Preferia até seu chefe àquela criaturinha passiva, carinhosa, melosa, sem um pingo de vida no sangue. Mas a culpa era dela, daquilo que acabou sendo. Foi criada assim, para ser perfeita, doce, angelical e infeliz. Pois dentro daquele corpo recatado corria tudo que a mãe e as amigas puritanas sempre detestaram, todo o lado negro da sociedade, o abominável.

O ódio é que a fazia respirar, porque não conhecia amor por nada, alegria em nada, só o descontentamento de dia após dia, acordar os filhos que nem pareciam dela, que a olhavam como se fosse uma estranha, que preferiam o pai, que eram tão inteligentes e impecáveis, sempre cheirando a limpeza, mas por Deus, eram tão frios! Deviam ser como ela, violentos, cheios de coisas horrendas palpitando dentro e isso ninguém devia saber, que escândalo seria! Depois, o trabalho, o trânsito insuportável, chegar em casa e cozinhar, só esperar por aquele beijo manso e odioso e a mesma conversa fiada, ah, meu bem, ela detestava que a chamasse assim, estou tão cansado! Depois o jantar, a TV que trazia mais tédio, deitar os filhos na cama e depois ir para sua, às vezes dormir desejando nunca mais acordar, às vezes sentindo aquele corpo macilento dentro dela, te amo, meu bem, você é tudo para mim... Ah, ela queria gritar que fosse para o inferno com sua ternura estúpida, que lhe fizesse mulher, que houvesse violência, que houvesse ao menos um pouco de prazer, para que deitar ao lado dele e sentir o cheiro enjoativo da sua loção pós barba não fosse a coisa mais apavorante do mundo!

Mas uma noite, em que dormiu chorando, mas chorando de ódio, veio o diabo sorrateiro abrir a linda caixinha talhada com ouro branco e marfim e todo mal estava feito.

Demorou uma semana inteira planejando. Detalhe por detalhe, deliciando-se com eles. Era sua chance, finalmente a liberdade, coberta de sangue e maldade, como devia ser, desde o começo. Seria sua vida apenas, para fazer dela o que bem quisesse. Trocaria de nome, de rosto, morreria para o mundo que a criou infeliz e nasceria novamente mesmo que fosse cair diretamente no inferno, porque nada era pior que seus dias calmos de abelha rainha.

Sexta feira ensolarada, pegou os filhos na escola e quando chegaram, o derradeiro bolo de chocolate estava na mesa. Ah, mãe, que delícia, muito obrigada! Foram doces até ali, como se soubessem dos planos da mãe. Sentiram sono, vão se deitar, meus anjinhos, estão cansados de brincar, não é? Beijou cada um na testa com carinho, pela última vez e os assistiu com verdadeiro prazer, dormir e ir direito para o céu, inferno, para o outro mundo, bem longe dela! Ria loucamente, enquanto que com uma faca afiada, retirava pedacinhos para o ensopado do marido. O pouco que restou de seus filhos, frutos de seu ventre diabólico, colocou no porta-malas. Enquanto preparava a refeição para o marido, fazia as malas, só levando o necessário, não queria mais nenhuma daquelas roupas, nada mais dessa morte que insistiam em chamar de vida, e boa, ainda por cima. O marido chegou, o mesmo ritual, o beijo, meu bem, que cheiro delicioso! Enquanto ele arrumava a mesa, dedicado e querendo só o melhor para sua linda esposa, ela terminava, com uma pitada de orégano e outra de fim. Ele comeu até fartar-se, elogiou, mas de repente, começou a sentir-se mal, sentir o mal, ai, que dor, meu bem, estou estranho! Deita aqui no sofá, eu cuido de você. E ela assistiu o marido, carcereiro de sua prisão, retorcer-se de dor, agonia, pânico, a morte lampejando nos olhos cheios de lágrimas, sem entender, enquanto ela se contorcia de prazer, de gozo, enfim, dá-me as chaves que quero ir embora para sempre! Quando as contrações pararam, seus olhos arregalados derramavam uma última lágrima, cobri-o com seu avental com delicadas rosinhas pintadas a mão pela sogra, soltou o coque, pegou as malas e foi para qualquer lugar onde podia ser o que mais queria: puta, devassa, maldita.


Até a próxima!

1.5.09

A Hora do Ocaso

Deveria ser um livro, mas a vida tornou-o apenas um capítulo.

Vinha descendo a noite sobre a cidade; nem quente, nem fria, apenas a noite. Não se via nenhuma estrela São Paulo não as permitia. Ela, sem nome, sentia falta delas. E por que não dizer que de algo mais?
Ele, esperava sem esperar. Tentava em vão, achar superficialmente os braços e abraços daquela menina. Intensa e profundamente, procurava algo que suspeitava, muito pesarosamente, não estar mais lá. Tinha medo, muito dele, mas não se encolhia nele.
Os olhos firmes dela, que de tão doces eram também tão distantes, fugiam no horizonte e contavam os carros: dois Corsas, um ônibus lotado, alguns Gols e várias motos. Contava também as horas que faltavam e as palavras que não vinham. Sentia não medo; na sua dura resignação não havia espaço para a dúvida, mas sim se sentia carrasca com machado em mãos, sentia o frio de suas palavras não ditas aos 27o C de um ocaso de outono.
Tinha que dizer-lhe sem demora nos próximos minutos. Tinha porque era obrigação: para com ele, para com ela, para com tudo que ainda lhe era caro. Não havia espaço para mentiras ou meias-verdades, não depois de tantos quilômetros e um sem fim de palavras percorridos.
Esse mesmo sem fim de palavras explodiam em sua cabeça como um novo big bang! E o que restava era um pó de estrelas que lhe velavam a alma, que diziam que era tão certo o que sentia que devia ser verdade. Mas era complexo para ela, até mesmo para ela, transformar esse pó de estrelas em palavras. Sabia que igual fenômeno aconteceria com aquele que segurava suas mãos cheio de amor. Só que haveria naquele outro mundo distante uma chuva de meteoros cor de fogo, que além da cor teriam também o calor e o ardor, queimariam não somente os olhos a beira das lágrimas como chamuscariam a alma inteira daquele menino com rosto de homem. Pois, no fim das contas, para sua infelicidade, era aquilo mesmo: uma grande inversão de papéis.
Queria ter de novo 16 anos, não para resgatar o sentimento que nela morava naquela tenra idade, já tinha desistido, não sem lutar, desse feito, mas sim poder gritar-lhe qualquer coisa impulsiva, suma! desapareça! e até mesmo isso lhe fora tirado. Sua poeira de estrelas era constelação organizada, e sem seus olhos podia-se ler que eram considerações, sentimentos e satisfações por demais para se dar ao luxo de uma infantilidade. Porém, não se sentia injustiçada ou tampouco triste. E isso, era também amargo e lhe embargava as palavras
_Escuta, tenho algo a lhe dizer. Não sei como, mas sei que tenho. Tentarei ser clara, mesmo que pareça cruel. Mas juro que não sou: sou qualquer coisa menos a megera incompreensiva que um dia pensei ser.
O corpo grande dele diminuiu. Viu a tempestade castanha muito escura se formar nos olhos dela. E não tinha abrigo ou guarda-chuva. Teria que enfrentar cada pingo espesso ou chuva com sua própria alma, exposta e vulnerável. Sentiu-se ridículo ao se perceber tremendo. Sentiu-se patético ao ver que lágrimas se anunciavam. E sentiu-se mortalmente triste por ter ouvidos e mais; coração.
Era injusto o que via a sua frente. Por onde andara aquela menina para se tornar tão mulher? Aquela iniciativa firme, seu tom de voz sem tremor, ainda que com uma ternura quase maligna, o que foi feito dela e por que ninguém se dignou a notificá-lo? Desarmado, percebeu-se mortificado por saber, mesmo que sem querer, que era ele o grande responsável por aquilo que vinha ao seu encontro. Ela e suas palavras, ela e sua força, ela que sofrera tanto por ele, mas aprendeu a se levantar e a se impor. Não vivo por carência, só vivo por amor. Não vivo pelo passado, só vivo por agora.
_Não há mais jeito, não quero, não quero agora, agora de jeito nenhum. Doi-me a alma dizer-lhe isto, Deus sabe o quanto eu te amei; por quantas noites chorei sem saber porquê, sabendo que era você e por quantos dias eu senti saudade das coisas que não foram? Mas agora eu sei que não serão. Morri quando você me deixou tão covardemente; morri e fiquei morta por vontade, minha alma falecida ainda te queria e isso me bastava. Mas a vida não quis assim, ergueu-me, mostrou coisas maravilhosas e por fim me trouxe paz. Você é muito caos para meu mundo, seu jeito incorrigível, amargo. Eu só preciso de paz, mesmo que silenciosa e solitária. Um dia escrevi: só preciso da paz. Da paz dos olhos de quem morre por amor. Ah, como me enganei! Eu ainda só quero a paz dos olhos, mas não é de quem morre, é de quem vive por amor! Meu caro, não tenho medo de dizer-lhe: foi o amor da minha vida. Porém, mudei de vida e nela não há espaço para nosso amor.
A extrema sinceridade e fervor de suas palavras eram um ataque cardíaco fulminante. Sentiu, no auge de seus 23 anos, a alma escorrer límpida e líquida pelos olhos. No rosto dela a tranqüilidade de quem abriu seu coração e um quê de preocupação: não era carrasca, era somente ela mesma e tinha o direito que todos nós temos: tentarmos ser felizes. E para provar a boa vontade de sua tão fria crueldade, abraçou-o forte e enxugou algumas de suas lágrimas.
Ele foi embora depois de uma longa conversa, o rosto vermelho e encharcado, 5 anos mais velho, arrastando paletó, corpo e alma. Sentia-se derrotado e infestado de sentimentos, inclusive o amor que foi a última coisa que jurou a ela.
Ela saiu com um sorriso no rosto, não zombeteiro, nem feliz ou entristecido, era o sorriso de quem se conclui. Saiu sim para nunca mais voltar e foi embora para nunca mais sentir saudades.

Até a próxima!

23.12.08

_ Last days....

2008 está chegando ao fim e para fechá-lo bem, postarei meu conto "campeão".
Espero que vocês gostem.

Podia se esquecer de quem era, mas delas, nunca.

A qualquer preço.

Deu-lhe as costas, mas sentiu seu antebraço ser agarrado com vigor pelas mãos trêmulas e decididas dela. Os dedos esqueléticos, de unhas roídas exaustivamente, queriam penetrar em sua carne, arrancar-lhe sangue, queriam ser ouvidos.

_ A qualquer preço, me ouviu bem?

Não respondeu, apenas acenou com a cabeça afirmativamente, querendo logo livrar seus olhos dos dela, que eram um mar negro e apavorante. Mas não houve tempo para escapar do que ele viu, a alma da mulher ali exposta, desesperada, suja como a lama que agora grudava em seus sapatos velhos. E ele sentiu aquela coisa pegajosa invadi-lo, inundando a própria alma e a contaminando, começou a sentir-se como ela, a ser ela. Porém se movia depressa e respirando fundo, afastou tudo aquilo que ameaçava tomar conta, sem compaixão, de seu espírito. Sentia-se protegido por uma sólida armadura, impenetrável, não podia deixar-se abalar. Tinha que ser forte, manter-se firme. Como ela disse, a qualquer preço.

O carro parecia não chegar nunca, estava mergulhado em um breu sem fim de uma esquina. Sentia seus ossos gelados como a ponta do nariz torto, devia ter se agasalhado melhor. No silêncio do abandono daquelas ruas imundas, ouvia ainda as palavras da mulher, pareciam ainda frescas, recém despejadas por aqueles lábios assustados. Elas se repetiam e pareciam ter vida própria, um significado profundo, mais profundo que ele mesmo poderia ser. A sonoridade delas era pesada, era um golpe certeiro na boca do estômago, uma sentença cruelmente apresentada. Estavam condenados.  

Enfiou-se sem jeito no carrinho velho, trancou-se lá dentro e tentou acalmar-se. O que mais incomodava não era toda conversa que viera antes, mas aquelas palavras doloridas. A qualquer preço, os dedos esmagando sua pele marcada pelo sol, implorando, eles imploraram, que levasse a sério como nunca tinha levado nada naquela vida miserável. Colocou a chave no contato, e deu a partida. Queria sair logo daquele lugar sinistro, aquela ruela estreita, sem o barulho da cidade para lhe dar o conforto de estar aconchegado pela multidão de estranhos desinteressados. Sentia aos poucos o coração acalmar-se dentro do peito magro, o sangue correr mais lentamente, a respiração quase se estabilizar.

O carro ia rodando lentamente, a luz do farol violando a escuridão do bairro. Tudo lá tinha o rosto do esquecimento e da pobreza, as casas abandonadas, cinzentas, as janelas que observavam por olhos encardidos e quebrados, o chão úmido e o cheiro... era um cheiro hediondo, de presságio, de crueldade... Mas ele sabia que aquele aroma perdido entre suas conchas nasais era dele, do corpo dele, que não era nem mais digno ou mais limpo que aquelas ruelas sinistras e esquecidas por Deus.

Achou que tinha se perdido, nunca avistava as luzes urbanas. Criou coragem em uma curva e espiou com o canto dos olhos o porta-luvas. Sentiu um arrepio correr e partir seu corpo ao meio. Ouviu o barulho de sua armadura rachando, era uma pequena rachadura, mas ela estava lá, abrindo-se devagar, devagar. Concentrou-se, devia ter virado na outra esquerda, tinha que voltar. Pare de rachar, fique forte, preciso de equilíbrio, de sangue frio, pensava rápido enquanto tentava achar o caminho. Estava tudo em suas mãos e agora tinha que ir até o final, a qualquer preço.

Enfim, começou a perceber a mudança no cenário. Um poste ou outro com iluminação apareceu e ele agradeceu. As casas agora estavam ocupadas e apesar da humilde aparência, emanavam vida e o som de uma televisão excessivamente alta invadiu o carro pela janela agora aberta. Precisava deixar o ar poluído da cidade purificar o carro. Esfregou os olhos, tinha sono e o corpo estava cansado. Imaginou como estaria sua aparência, a dela era péssima! Tinha emagrecido uns tantos quilos, seus olhos estavam enterrados nas órbitas, suas clavículas saltavam mais do que nunca, nem parecia a mesma mulher. E apesar de debilitada, tanta força tinha nas palavras... maldita, era uma maldita! E ele também seria. Seriam malditos e não podiam fazer mais nada a não ser seguir, sem questionar. Olhou de novo para o porta-luvas, engoliu seco. Chegaria logo, precisava de um banho bem frio, gelado, para acordar o corpo e assustar a alma. Mas estava acostumado, quantas vezes a luz não fora cortada?

O sinal fechou. Vermelho. Encarou de frente aquela luz. Vermelho era de culpa, uma culpa intensa e delirante. Vibrava, tinha vida como aquelas palavras, vibravam juntos e partiam, partiam aos poucos sua proteção, sentia a pele trincar e sentia medo, o medo embrenhando-se sorrateiro por aquela pequena fresta. Fechou os olhos com muita força, não posso ceder, não vou titubear, coragem, homem, coragem! A buzina trouxe-lhe de volta. Abriu os olhos e não havia mais vermelho, só um verde desbotado. Seguir, tinha que seguir a qualquer preço.

Um banho frio, é o que precisava. Tentava se concentrar, lembrar do banheiro pequeno e mofado. E um copo cheio de café sem açúcar. Precisava muito de cafeína, o negro fervente pelo vidro opaco, os copos de lá eram velhos e tinham cheiro de sabão barato. Mas não se deitaria na cama, essa noite não se sujaria naqueles lençóis que nem se lembravam que um dia foram brancos. O porta-luvas o encarava silencioso ainda. Fizera de tudo naquela vida sórdida, mas o que lhe era exigido sugava suas energias por completo, era demais para ele e para suas mãos maculadas.

O hotel estava perto. O bar da esquina estava cheio de gente. Dois homens pareciam querer começar uma briga, mas a maioria estava entretida em uma partida de sinuca. Queria uma cerveja, bem gelada, trincando de gelada, mas não era hora daquilo. Era hora de enfrentar. Fazer o que tinha que tinha que ser feito a qualquer preço. Enquanto observava o letreiro desbotado de letras redondas e azuis, lembrava que se aquela mulher tinha jeito para alguma coisa, era com as palavras. De todas, escolheu as melhores para machucá-lo, obrigá-lo e relembrá-lo. Podia se esquecer de quem era, mas delas, nunca.

Estacionou com certa dificuldade, era um estacionamento absurdamente apertado e as vagas deveriam ter sido feitas para meio carro, não era possível. Agora que o motor parara de roncar, não sabia mais como se sentia. Aliás, não sabia se era capaz de sentir. Não conseguia imaginar mais nada, nem o café, nem o banho, nem o rosto cadavérico e aterrorizado dela e tampouco algumas horas dali em diante. Pela primeira vez teve a sensação de realmente não saber o que o esperava quando abrisse aquela porta, era como se tivesse que morrer para deixar aquele carro e o corpo caminharia com outra alma. Mas era bom não sentir e era melhor ainda não tentar prever. Sentia-se leve, leve como se estivesse vazio de fato.

Ia abandonar o carro, arrastar sua carcaça que julgava abandonada até o quarto no terceiro andar e voltaria em breve. O porta-luvas ainda lhe deu uma leve olhadela, mas não seria preciso lembrá-lo, estava consciente e firme de suas obrigações cruéis. Porém, olhou no retrovisor, costume antigo de checar se alguém o perseguia. Naquele reflexo viu seus olhos, velhos e emoldurados por rugas e pior, viu sua alma e foi isso que fez com que seu escudo se estilhaçasse sem piedade, estava nu e desprotegido, exposto para si mesmo e aquilo era demais até para um homem como ele. E como se não bastasse enxergar suas próprias entranhas que tinham a cor do inferno, havia mais e era muito mais horrendo, era ela e sua alma que lembravam um rio em uma noite sem luar, não podia haver luz em uma coisa daquelas e ela e seu espírito estavam em tudo nele, até em suas rugas, em cada poro, em cada cicatriz. Estava dominado e infectado, condenado, morto, enterrado. Apoiou seus cotovelos ossudos no volante e começou a chorar, como nunca chorara antes. Seu soluçar era de desespero, era o desespero líquido e límpido, lágrimas que não queriam e não podiam cessar. Era uma criança que já não era inocente e chorava copiosamente, de dor, uma dor que não era física, mas nada podia doer como aquilo. E chorava na tentativa de limpar, de não ser mais aquela escuridão que vira, de livrar-se da presença dela, haveria de sair de seu ser. A qualquer preço.



Até, bom fim de ano!

Próximo conto...?

27.4.08

_ Ele era a personificação agora bizarramente manca dos meus demônios mais perversos...

Gostei muito do resultado desse conto. Ficou com a velocidade que eu queria, a intensidade.... Espero que gostem e não vou me estender em comentários. Mas esse eu preciso fazer:

"Quem inventou o inferno não conhecia a consciência"


Reencontro


Caminhava com certa dificuldade, desviando das pessoas apressadas como eu e de seus guarda-chuvas ameaçadores, um quase havia feito um estrago no meu olho direito na esquina que tinha acabado de virar. Meu passo era rápido, pois infelizmente, não tinha uma arma daquelas para me proteger, meu cabelo recebia diretamente as gotas minúsculas de chuva daquele dezembro úmido. E como não podia ser diferente, corria também contra o tempo, sempre atrasada. Porém, minha mente seguia um ritmo diferente, tentando controlar a ansiedade do encontro ao qual me dirigia e meus olhos tentavam registrar as mudanças sutis daquelas calçadas. Ainda me incomodava o fato de ter me esquecido o caminho que aquele ônibus tão familiar fazia! Pois eu tenho um medo tolo de esquecer esses detalhes cotidianos, tão importantes para mim, como se, se eu os esquecesse, estivesse esquecendo também do meu passado que, por mais cruel que seja, é minha vida, parte de mim... em minha mente perturbada, esquecer do passado é deixá-lo morrer e nessa morte simbólica vai um pouco de mim também. Lembrar das coisas é mantê-las vivas, acho eu. Ironicamente mais tarde, essa mesma mente perturbada experimentaria a sensação contraditória de querer deixar certos detalhes do passado morrerem e não participarem mais de mim. Porque, por mais que os erros ensinem, pois todo erro ensina e tolo daquele que não aprende, doem absurdamente. Ainda mais quando andam.
Quando finalmente alcancei a entrada do metrô, deslizei os dedos pelos meus cabelos salpicados de chuva, tentei arrumá-los, mas acredito que só piorei sua aparência. A fila para comprar bilhetes estava maior do que de costume, aliás, o subterrâneo parecia tão movimentado e cheio de vida quanto a superfície. Lembranças, lembranças... as paredes daquela estação estavam impregnadas delas! Quisera eu ter mais tempo para me encostar em algum canto e observar aquele lugar e as pessoas. Quantas vezes não fizera isso, sempre a espera? Mas naquele dia eu tinha pressa, muita pressa.
Peguei a fila, contornando algumas pessoas. Pelo canto dos olhos, reparei em alguém, com uma guitarra pendurada nos ombros, os cabelos de aspecto ralo encharcados, bem mais que os meus pude observar, todo trajado de preto. Esse alguém olhava constantemente em minha direção e me lembro claramente de olhar para trás para checar para quem aquele estranho olhava tão atentamente. Depois de um tempo, a fila sempre andando devagar, percebi que eu estava realmente sendo observada por ele. E depois que me atrevi a olhá-lo nos olhos, entendi por que. Afinal, ele não era um completo estranho. Definitivamente.
Então, as engrenagens de meu cérebro enferrujado pela chuva começaram a funcionar e como por vingança do que a pouco pensara dela, minha memória golpeou-me com sua costumeira eficácia e habilidade. Uns dois anos atrás, mais ou menos isso. O mesmo lugar, uma outra fila com outras pessoas, um outro dia que brilhava lá fora. Fazia calor, como me esquecer? Eu, ansiosa, esperava minha vez de comprar o bilhete. Quando um olhar cruzou com o meu. Os olhos eram os mesmo que eu evitava agora, fechando o casaco e me escondendo por trás do alto rapaz que estava na minha frente. Mas não o olhar. Naquele passado não tão distante, eram olhares curiosos que trocamos, de totais desconhecidos analisando um ao outro. Hoje, o dele era de incredulidade. O meu, devia ser de assombro, aos poucos sendo substituídos por lampejos muito claros de dor.
Ele comprou sua passagem e se virou ainda umas vezes pra me ver e eu sempre me escondendo. Mas quando tirei a nota amassada do bolso, recolhi meu bilhete e umas poucas moedas de troco que larguei apressadamente no fundo de minha mochila, percebi que minha curiosidade era maior que meu medo. Apertei o passo e o segui. Depois, a passos calmos, procurei a figura que mais parecia ter saído do inferno, do meu inferno pessoal, e logo o localizei. De relance, notei um quê de perturbação nos seus olhos verdes, aqueles malditos. Fora eu o motivo de toda aquela agitação ou ele sempre fora meio perturbado mesmo? Que eu sabia dele? Não muito, apenas aquilo que nossa breve conversa me permitia saber. Conservei uma distância segura, mas cuidei de tomar o mesmo vagão que ele. Entrei, sentei-me e ele ficou de pé. Porém, houve tempo de perceber que ele não andava mais como outrora. Estava mancando muito, algum problema grave na perna esquerda. E sem a mínima cerimônia, pus-me a observá-lo. Como tinha mudado! Quando nos conhecemos, ele era apenas um menino magrelo com um gosto musical duvidoso parecido com o meu. Ele gostava de Tchaikovsky. Dei um sorriso e olhei pra baixo, procurando algum lugar pra esconder meu rosto. Meu corpo. Minha alma inteira, pois eu tinha repulsa dela. Senti uma golfada de vergonha subir por minha garganta. Ele, ali na minha frente. Um fantasma de carne e osso que me olhava, com seus olhos verdes e com um toque de loucura, estralava os dedos, ansioso, e eu queria lhe gritar que o odiava muito! Seu nome marcado a ferro e fogo na minha memória, por que, cérebro maldito, simplesmente não nos deixava esquecer?! Por que eu simplesmente não podia esquecer seus traços, seus olhos que um dia me levaram ao crime, o que eu tinha feito? Ele era a personificação agora bizarramente manca dos meus demônios mais perversos, do meu erro imperdoável, era a culpa ambulante a me acusar, apontando seu dedo medúsico bem no meio dos meus olhos e...
Era só um jovem parado na minha frente, que insistia em me encarar, procurando um olhar de curiosidade e de reconhecimento. Queria falar comigo. Compartilhávamos desse desejo. Mas eu com certeza não o exteriorizei, apesar de por dentro estar em guerra, lágrimas e sangue espalhados desordenadamente em meu coração e mente, por fora era a paz e a arrogância em pessoa. Mesmo assim, o jovem agora com traços de velho, sentou-se ao meu lado. Respirei fundo e quis olhá-lo bem no fundo dos olhos, mas continuei na minha representação de não reconhecê-lo e de não estar sofrendo absurdamente. Lado a lado com meu pecado mortal. Podia ouvi-lo respirar. E de repente quis saber o que tinha acontecido com ele. Algum acidente de moto? Lembro-me bem de seu pai ter uma moto...
Acidente foi termos nossos caminhos cruzados naquela primeira vez, uma tarde com ar de inocente. Agora era apenas minha memória cruel jogando-me na cara que o passado nunca nos abandona. Que meu travesseiro nunca seria macio como antes. E sentada ali, observei a porta do vagão. E lembrei como começamos a conversar. Naquele fatídico dia, éramos três. Aliás, lembrar desse outro alguém me levou a uma lembrança mais profunda e ainda mais dolorosa, que tentei evitar, mas eu simplesmente não sabia perdoar. Ouvi aquela voz e aquelas palavras novamente, queimando meus ouvidos, destruindo meu coração, fadando-me a infelicidade. Meus olhos se encheram de lágrimas, palavras duras, tão duras! E infelizmente, absurdamente verdadeiras e eu daria tudo para ser ignorante e discordar delas! Discretamente observei suas mãos. Pálidas, magras, agitadas. Quis tocá-las e chamar-lhe pelo nome. Talvez elas se desfizessem, tornar-se-iam pó e eu acordaria no conforto da minha cama, era só um pesadelo! Pesadelo ou não, não havia resquício algum de força em meu corpo ou alma e permaneci estática, apenas esperando que ele rompesse o silêncio e me libertasse daquela alucinante tortura silenciosa de auto punição que eu me encontrava. Chegamos a uma estação e ele pulou do banco, saiu mancando, seu passo agora triste e doloroso...
Ah, caro amigo... não foi só você que mudou, não foi só você ficou mutilado desde do nosso último encontro! Pois, eu ando normalmente, mas minha alma, essa tem os passos mais pesados que os seus, a cadência mais mórbida que a sua, o caminho mais triste que o seu, pois esse lampejo de inquietude dos seus olhos habita os meus todos os condenados dias que tenho que viver!
Ele ainda olhou-me do alto da escada rolante, entre as tantas outras pessoas tão alheias a nossa dor. E dos meus lábios seu nome ainda escapou, sendo o último suspiro de uma alma amaldiçoada por seus pecados que andam entristecidos pelas ruas dessa cidade.

____________

Próximo Conto: a decidir.

Até.



6.4.08

_ Pro diabo com o silêncio quando tudo que se espera é uma palavra, uma reação!

O final desse conto "bonitinho". E termino com essa frase, que eu sei o quanto é verdadeira. Espero que gostem.

Fora de Estação.

Parte Final.


E a árvore a observava com muitos olhos amarelados. Enrubesceu, estava ficando velha mesmo ou apenas lutava para esconder qualquer coisa que pudesse fazê-la voltar atrás? Não era covarde, só não queria errar!

_ Você vai conseguir deitar a cabeça no travesseiro sabendo que deixou as coisas do jeito que estavam por medo de mandar tudo pro inferno e começar de novo?

_ Por que você acha que eu quero fazer isso? Talvez eu só queira continuar do jeito que estou, seguir os planos, talvez eu esteja feliz do jeito que estou! Aliás, por que você acha que eu menti?

_Olhe para você! Esta inquieta demais, seu sorriso tem uma tristeza, uma inquietação! Aposto que essas olheiras... você nem deve estar dormindo direito pensando nisso!

_ Já disse, é o estresse!

_ Você me perguntou se as flores têm perfume.

_ E daí? _ Ângela tremia, tentava ficar calma, pelo menos demonstrar que estava. E agora aquela pergunta estranha, onde ele estava tentando chegar?

_ Como eu poderia saber, se a única coisa que eu me lembro é do seu perfume? Do calor do seu abraço e de seus lábios tão doces? Droga, Ângela, eu fiz uma pergunta aquele dia e você mentiu porque estava com medo! Simplesmente não posso deixá-la fazer isso de novo! Antes era só uma coisa de adolescente, mas agora é pra valer! Você está com medo de decepcionar as pessoas? Poxa, danem-se elas! E você? Onde fica você essa historia toda, o que você sente realmente? E eu? Como fico, sabendo que você vai ser infeliz ao lado daquele cara? Não, eu respondo sua pergunta, você não sentiu um pingo de saudade dele e tampouco o ama! Era isso que você estava com tanto medo de descobrir?! Pois bem, está aí a verdade!

Olharam-se demoradamente, a respiração de Carlos um pouco alterada, a expressão gelada e pálida de Ângela. Ele esperava apenas uma reação de dela, um grito que fosse, um “vou fazer as coisas do meu jeito dessa vez!” ou um seco “cala a boca, você não faz idéia do que esta falando.”, um tapa, uma crise de choro, qualquer coisa! Menos aquele silêncio, aquela expressão de pedra. Justo eles, que debaixo de árvores como aquela, podiam passar horas em silêncio juntos, sendo felizes! Pro diabo com o silêncio quando tudo que se espera é uma palavra, uma reação!

O alarme do relógio, presente do noivo, tocou. Ângela desprendeu os olhos dos de Carlos, calçou os sapatos e saiu, sem dizer uma palavra, do carro. Carlos, indignado, seguiu-a, tentando manter-se calado, já havia falado demais. Toda aquela eloqüência a troco de nada, fizera papel de tolo e agora teria que encarar aquele homem de jeito sereno, mas tão vil a seus olhos! Para inferno ele e aquela risadinha amena sem energia! Atravessaram a rua, alcançando a calcada coberta de amarelo.

_ Carlos _ Ângela parou, olhando pra cima, onde o céu e a copa da árvore se confundiam, respirando fundo, buscando forças. _ Essas flores ainda têm perfume?

Ele, serenamente, a encarou. Começava a ventar, seus cabelos ganhavam movimento, estava tão linda! Esperando que a partir daquele momento o noivo dela não fosse pontual, puxou-a para perto, olhando no fundo de seus olhos, que demonstravam medo ainda, mas estavam banhados de uma cor que lembravam bastante a coragem. Ela então sorriu, querendo lhe dizer algo, mas sabia muito bem a agora do silêncio. E beijaram-se com a suavidade do perfume de uma flor amarela.

Fim.


E o próximo conto será ...


Reencontro.


Até!





15.3.08

_ E essas flores, têm perfume?


Eu nunca vou saber que flores são essas para falar a verdade!

Fora de Estação.
Pt.3


Jogar conversa fora, você não é disso, pensou Ângela. Abriu mais o vidro do carro. Aquelas flores, teriam perfume? Não se lembrava. Aliás, as tais prendiam sua atenção porque lhe reavivarem a memória, não era verdade? Havia uma árvore igualzinha a ela em algum lugar importante... onde mesmo? Será que estava assim, tão velha para esquecer de coisas tão simples? Pousou as mãos no colo. Observou-as demoradamente. Não, ainda eram mãos jovens, vigorosas, o esmalte discreto de uma mulher madura e bem sucedida e... aquele anel dourado na mão direita. Apertava-lhe o dedo anular agora. Só alguns meses e minha filhinha estará casada, uma mulher formada! Foi assim que lhe disse sua mãe, enquanto servia chá com biscoitos amanteigados. Tinha forma de flores e ursinhos, teve vontade de rir. Biscoitos daqueles para uma mulher como ela! Ah, mãe, tivera vontade de lhe dizer algo, algo que ela não entendera no momento e tão pouco entendia agora, mas engolira aquilo que a perturbava junto com seu chá e biscoitos, com um sorriso de Ah! Está tudo tão bem! Mas não estava, definitivamente. Olhou o relógio novamente, fazia-o com muita freqüência ultimamente, vinte e tanto minutos! Uma eternidade. Virou discretamente o rosto para observar Carlos, o pescoço encostado no banco, os olhos cerrados, as mãos pousadas no assento ao lado do corpo. Não tão velhos assim, não? Seus dedos, lisos e jovens como sempre...
_ Você sentiu falta dele? _ a pergunta pegou-a de surpresa, como se ela própria a tivesse feito. Carlos permanecia de olhos fechados, um raio atrevido de sol dourava-lhe os cabelos bem cuidados.
_ De quem? _ sua voz tinha um quê de “eu não quero falar disso. Aliás, do que estamos falando mesmo?”.
_ Do seu noivo, Ângela.
_ Sim.
_ Tudo bem se você não sentisse. Duas semanas é bem pouca coisa para pessoas duronas como a gente, não é? _ Pois é. _ agradeceu secretamente por Carlos nunca ter aberto os olhos e a olhado profundamente. Não soube se conseguiria mentir nessa situação embaraçosa.
_ Você viu, tem uma daquelas árvores do outro lado da rua. _ Ângela respirou aliviada. Queria dizer obrigada por não continuar com aquele conversa. Já não bastava tanta inquietação que não a deixava dia e noite? _ Na casa da minha mãe havia uma, porém bem mais bonita. Você com certeza se lembra. Mas nunca a vi florescer no inverno.
O tom da conversa era ameno e Ângela viu-se por um instante, totalmente relaxada e livre de seus tormentos. Sem pensar muito no que fazia, como outrora fazia, deitou-se, pousando a cabeça nas pernas de Carlos. Seus cabelos claros se espalharam pela calça dele, como as flores na calçada.
_ Mentira. Lembro-me de um inverno que ele estava abarrotado de flores! Era tão bonito... você se lembra, claro.
_ Sim. _ sim, agora era uma lembrança bem nítida. A casa de Carlos, no fim daquela rua cheia de árvores. Gostava de andar lá de bicicleta e depois passar tardes inteiras conversando com os amigos debaixo da sombra generosa de alguma delas. Até a lua parecia muito mais especial por entre a folhagem daquelas abençoadas e verdejantes. _ Sua rua era praticamente um bosque. Será que elas ainda estão por lá?
_Pouco provável. A região hoje é quase toda de prédios. Pequenos apartamentos com uma vaga na garagem e um playground com areia de mentira. Nesse tipo de lugar não há espaço para árvores.
_ E essas flores, têm perfume?
Carlos acariciou seus cabelos, suspirou e olhou pela janela.
_ Carlos?
_ Por que você insiste em mentir para mim? Acho que não precisamos disso. _ sua voz era calma, porem mais firme do que Ângela gostaria de ouvir.
_ Menti sobre o quê? Do que você está falando?
_ Sobre sentir saudades dele.
_ Eu... _ olhavam-se nos olhos. Ângela sentiu que não poderia dizer qualquer coisa.
_ Você não precisa disso, Ângela. Custa ser um pouco sincera?
_ Eu só não quero falar sobre isso. Talvez eu não queira nem pensar nisso, para falar a verdade. _ Afinal, ela perdera noites de sono tentando não pensar naquilo. Que direito ele tinha de perturbar-lhe daquela forma?
_ Ângela, querida... você não está velha demais e nem covarde demais. Posso sentir isso quando olho para você! Por favor, chega de sentir medo de encarar isso de frente!
_ Como se você entendesse!
_ Não fique brava comigo, vamos. Só estou tentando fazê-la ver que está prestes a fazer uma grande tolice por medo! Justo você!
Ângela desviou o olhar e fingiu prestar atenção em qualquer coisa do lado de fora. Que grande intrometido que ele era! Sempre achando que entendia mais dela do ela mesma, sempre achando que podia chegar no meio da conversar e dar sua maldita opinião!


Continua...

Ao som de: Atrocity - Here Comes the Rain Again

19.2.08

_ Mas a estação das flores não era a primavera? Todas as estações em um dia só, não soava assim?

O dia em que terminei de escrever esse conto foi muito especial. Luz de velas, muito frio e flores amarelas. Coisas de gente maluca. Mas as personagens agora esperam, por algo muito maior do que realmente parece ser, enquanto observam " todas as estações em um dia só".

Fora de Estação.

Pt.2

Olharam em volta, não faziam a mínima idéia de onde estavam. Riram, deram meia volta e fizeram o caminho contrário, mas evitaram passar muito próximos do amigo de Carlos, que agora ressonava discretamente, a cabeça pendida no peito, as mãos enfiadas no bolso da casaco marrom. Ângela confidenciou a Carlos:

_ Aposto que aquele casaco é presente da tia avó!

_ Deixe a pobre em paz, tá certo?! _ mas Carlos sorriu, revirando os olhos, entretido com as idéias estranhas da amiga. _ Que tal um café? Você paga.

_ Hum, apesar do convite tentador, acho que não, acabei de almoçar. Que tal voltarmos ao carro? Com essa horinha que temos, posso até dar uma boa cochilada.

_ Uau, parece muito emocionante! Mas me conte, não anda dormindo direito?

_ Muito trabalho, preocupações, o estresse de sempre...

Enquanto conversavam a conversa morna e despreocupada de bons e velhos amigos, atravessaram a estação e finalmente sob o sol das duas horas de uma bonita tarde de inverno, alcançaram o carro vermelho estacionado do outro lado de uma grande e florida árvore.

_ O banco de trás é meu! _ adiantou-se Ângela e abrindo a porta.

_ Ok, vá lá, dorminhoca. Posso caçar algo no rádio?

_ À vontade.

Ela deitou-se no banco traseiro, dobrando as pernas, torcendo o corpo tentando arrumar-se em uma posição mais confortável.

_ O carro do meu pai era bem maior e bem mais aconchegante, sabe?

_ Você é que cresceu, garotona...

Não contente, a jovem virou-se umas três vezes no banco, depois de ter tirado seus sapatos de salto alto e finalmente deu-se por vencida, largando-se do jeito que estava. Respirou fundo, verificou o relógio. Uns quarenta minutos ainda, tinha um bom tempo para descansar os olhos do cansaço que tirava um pouco as cores de seu rosto ultimamente. Fechou os olhos, ouvindo sons suaves, como de carros há duas travessas acima e as tentativas nada bem sucedidas de Carlos sintonizar em alguma estação. Só se ouvia estática. O sol que entrava pela janela esquentava seus tornozelos nus. Era um inverno um tanto estranho aquele. No dia anterior saira de casa com uma de suas blusas mais grossas, meias até os joelhos e com o guarda chuva no porta-malas. E agora, aquele sol escaldante, o céu tão azul e sem nuvens... observava, já que abrira os olhos pois a mente simplesmente não desligava apesar de todo cansaço do corpo, a paisagem acima de sua cabeça. Adorava aquelas flores, de onde se lembrava delas? E a árvore estava carregada e ainda abarrotavam a calçada! Mas a estação das flores não era a primavera? Todas as estações em um dia só, não soava assim? Coisas desses tempos malucos... era o apocalipse chegando, diria sua tia avó. Não é que ela mesma tinha uma esquisita tia avó? Riu.

_ Ri de quê?

_ De uma tolice que me lembrei... estou com os tornozelos queimando nesse sol!

_ Meus ombros estão em chamas também... ainda mais nessa parte do carro. Quer saber? Chega pra lá! _ Carlos abriu a porta e saiu do carro se espreguiçando um pouco. Ela se levantou com um pouco de dificuldade e deu espaço para o amigo sentar-se.

_ Uau, aqui tem uma pseudo sombrinha! E você ainda reclama dos seus tornozelos, não imagina como o sol estava lá na frente!

_ E o rádio, preguiçoso? Desistiu de sua missão?

_ É... simplesmente não sintoniza. Está de mau humor assim como esse tempo. Meio...

_ Fora de estação.

_ É... bem por aí. _ Carlos despiu a jaqueta preta que usava. _ Talvez agora eu esfrie um pouco.

_ Como você é esperto! Com esse casaco super grosso debaixo do sol... depois não quer sentir calor?

_ É que não gosto muito dessa camisa que estou por baixo. Deixa-me velho.

_ Você é velho, Carlos. Aliás, nós somos.

_ Nem tanto... _ virou o pescoço e analisou, coçando o queixo com um sorriso perverso. _ Mas bem que você está acabadinha!

Ângela acertou-lhe um tapa no braço e virou-se para observar a rua. Prendeu-se à árvore. Aquelas flores, tão lindas, caindo serenas, uma após a outra, no asfalto. Uma tarde fora de estação, mas tão bela... desejou que houvesse algo para ouvir no rádio, uma canção... mas qual? O silêncio era agradável, sempre o fora entre aqueles dois, mas havia uma qualquer coisa que a perturbava naquela tarde. Estava inquieta, era isso. Mexeu-se no banco, olhou para o relógio, ainda meia hora!, e finalmente pousou o olhar em Carlos, que também prestava atenção em algo fora do carro. Tinha um semblante pensativo e sem que ela notasse, igual ao dela.

_ Quanto tempo?

_Hein?

_Há quanto tempo ele está fora?

_ Ah, umas duas semanas, se não me engano...


Continua...


Ao som de ... Muse - Super Massive Black Hole

1.2.08

_ "E há horário para tudo, comer, beber, dormir, trabalhar, dançar, cantar, amar, e até mesmo para sonhar! "

Uma história bem fofinha. Porque sonhar faz bem às vezes.

Fora de Estação

Pt. 1


_Temos dois minutos.
Seus olhos fixos no relógio digital. Os segundos iam passando, ansiosos ou apreensivos? Só sabia que corriam, rápidos como os tempos modernos. E ela era uma filha orgulhosa dessa época, a vida e os sonhos acorrentados ao relógio e os olhos em busca dos números multicoloridos, tão atrativos, piscando para nos lembrar que a vida é cada vez mais curta, que envelhecemos cada vez mais e que simplesmente não temos controle sobre a situação. E como escapar se aqueles malignos estavam em todos os lugares? Nas paredes, nos computadores, nos passos apressados, nas cabeceiras e debaixo dos travesseiros, nos bolsos, na televisão, na voz incansável do locutor dos rádios, nos pulsos, nas praças, em vitrines e até nos sinos das igrejas. E há horário para tudo, comer, beber, dormir, trabalhar, dançar, cantar, amar, e até mesmo para sonhar! Só não sabemos a hora em que morreremos e estamos sempre esperando por ela, fingindo que podemos adiá-la...
_ Dez segundos, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois... um! Vamos?
Saíram do carro, e calmante atravessaram a rua que os levava até a estação de trem. Estava agitadíssima, pessoas enchiam de vida e movimento a grande e charmosa construção de tijolos vermelhos, tão antiga quanto aquela cidade. Pessoas andavam muito apressadas, algumas até corriam, cheias de todo o tipo de malas e mochilas. Diversas eram também aqueles que as carregavam, seus rostos tão ricos em expressões, algumas aflitas, um pouco de cansaço emoldurando os olhos de uns e uma alegria esperta nos olhos de outros. Uma distraída e tipicamente perdida jovem de cabelos muito curtos trombou com Ângela, que não pode fazer outra coisa a não ser rir da garota com um mapa prestes a cair do bolso do casaco desbotado que um dia fora... azul? Mas eles andavam tranqüilos, estavam no horário e era até bom observar toda aquela gente passando depressa por seus olhos. Quando mais jovem, ela podia perder uns minutos sentada apenas tentando adivinhar o destino de cada uma daquelas pessoas, até mesmo suas vidas. Algumas simplesmente passavam despercebidas com seus rostos impessoais, outras chegaram até mesmo a tirar seu sono.
Procuraram a plataforma onde ele deveria chegar e com a ajuda de um guarda gordo e de cabelo muito grisalho que escapava por baixo do boné, acharam sem maiores dificuldades. Porém, não havia trem algum por lá, apenas algumas pessoas com semblantes aborrecidos. Carlos aproximou-se de um senhor.
_ Que há, amigo? O trem não deveria ter chegado?
_ Pois é, veja que atrasou! Estou esperando pela minha insuportável tia avó há um tempinho já e agora mais essa! O trem teve um problema, não me pergunte qual, por lá mesmo e vai demorar no mínimo uma hora! Não é um absurdo? Como se eu não tivesse mais nada para fazer da vida...
Virando as costas para os dois homens discretamente, Ângela riu baixinho enquanto fingia observar os trilhos vazios. Carlos sorriu para o homem que foi sentar-se em um dos bancos e o deixou, apromixando-se de Ângela, tocando seu braço de leve. Ela sem perguntar nada, começou a andar sem direção sendo seguida por Carlos, apenas esperando uma distância segura.
_ Que amigo mal humorado você foi arranjar, hein?_ Ângela ria agora mais abertamente, mais ainda checando por cima do ombro do amigo se o homem não os observava, contudo ele parecia muito mais interessado em uma jovem de vestido vermelho que passava pela plataforma. _ Tia avó?!
_ Ah, nem me fale! Tive medo de o homem começar a contar histórias sobre a velha! E sabe do pior?
_ Não?
_ Tenho certeza que alguém aqui, muito esperta, _ puxou-a pelo braço e o beliscou de leve _ deixaria esse pobre mortal lá, ouvindo como a maldosa tia avó do meu novo amigo nunca fazia biscoitos para ele!
_ Eu? Nunca! Sabe muito bem que é de minha natureza acompanhar meus amigos, mesmo aqueles que me beliscam _ ela agora revidada com um doído beliscão em seu abdome _ em todos os
_ Ei, sabia que isso doeu?
_ Ótimo. Era a intenção. Mas... para onde estamos indo, afinal?



Continua......


Ao som de ... Queen - Who Wants to Live Forever



17.12.07

_ ... será que aquelas folhinhas nunca sentiram vontade de assistir ao espetáculo do inverno?


pensou olhar para trás e perceber que existem verões em sol e relacionamentos sem amor?

Vestígios de um verão sem sol.

Levantou-se da cama e foi abrir a janela. A luz intensa do sol do meio dia feriu seus sensíveis olhos claros, porém o ar fresco de um outono recém chegado lhe fez muito bem. O verão finalmente tinha chegado ao fim.

_ Essa é a hora que as folhas caem e músicas como essa não têm mais nenhum significado, não é?

Falava para si mesma, dando as costas agora para a janela e observando as paredes cor de palha da casa vazia. Ao fundo, o rádio tocava aquele CD. Ela suspirou longamente, onde estaria a caixa onde ele veio embrulhado? Provavelmente esquecida no fundo daqueles armários com cheiro de mofo. Estavam fechados desde o último verão que passaram ali. Esticou os braços para as portas, mas não sentiu verdadeira vontade de abri-las.

_ Deixa os mortos repousarem em suas silenciosas tumbas, Érica.

Voltou seus olhos entristecidos para o mundo do outro lado da janela. As árvores continuavam as mesmas e as folhas balançavam ao sabor da brisa fresca. Vez ou outra uma delas caia, aliviada, no chão de terra batida, e se juntava às outras companheiras de missão cumprida. Tinham feito a primavera e o verão e agora era hora de repousar e voltar de onde vieram. Pensava agora, as mãos apoiadas no parapeito da janela, será que aquelas folhinhas nunca sentiram vontade de assistir ao espetáculo do inverno? Talvez elas fossem espertas o suficiente para saber que todos têm sua hora de cair.

_ E será que é tão ruim assim?

O CD finalmente chegou ao fim. Ficou o silêncio pesado passeando pelos corredores, Érica quase podia senti-lo chegar mais perto. Não o queria. Se demorasse muito, logo conseguiria ouvir as confissões daquelas paredes e muito provavelmente seus pedidos.

_ Por que o deixei pintá-las dessa cor tão pavorosa?

Fechou os olhos e largou-se na cama. Ficou o mais quieta possível, imóvel. Mas não ouviu nada, sequer um sussurro entristecido. Abriu lentamente os olhos, tocou os lençóis com suas mãos suaves, as unhas recém feitas. Não, nem as paredes nem aquela cama queriam falar-lhe. Assim como as músicas naquele CD. Ou seu coração.

Então, tornou a fechar os olhos. Estava confusa, entristecida, aliviada, até uma vontade de rir lhe atormentava. Simplesmente não entendia o que estava acontecendo, não era pra ser assim.

_ Era para ser triste, Érica! Era para você estar com os olhos cheios de lágrimas, o coração pesado, a mente cheia de lembranças! _ Levantou o corpo e apontou para o armário, no seu monólogo entusiasmado, continuou _ Olha bem aquele armário! Está cheio das roupas dele, do perfume dele, a camisa que ganhou da madrinha, aquela que ele odiava e usava para cuidar do jardim, enquanto você, sua insensível, morria de rir dele, enquanto lia numa cadeira confortável! _ Sua respiração ia se alterando, as palavras cada vez mais rápidas saltavam de sua boca _ E essa cama! _ Suas unhas cravaram-se no lençol muito macio e seus olhos deslizando também por ele _ O que essa cama guarda! Tantas aventuras e prazeres, quantas palavras trocadas, até outro dia jogávamos baralho, você ganhou e ele, sem saída, apagou as luzes e te enlouqueceu! Érica, você... eu... _ Parou, os olhos lá fora, acompanhando uma folha que caia e lembrando que estava tão sozinha ali e discursava apaixonadamente tão somente para si _ Eu não sinto falta dessas coisas. De nenhuma delas.

Olhou em volta, tocou o travesseiro de fronha verde folha e o trouxe para perto. Queria abraçá-lo, mas seus braços não obedeceram. Uma carta de baralho caiu quando ela o devolveu ao lugar onde estava.

_ Ele roubou só pra eu ganhar. Para me ganhar.

Levantou-se da cama, foi até o rádio e colocou para tocar o CD de novo. Caminhando até o banheiro, cantou junto com a cantora que chorava um amor perdido. Sabia a letra de cor, mas aquelas palavras... que diziam? Não sentia falta dele as cantando para ela, entre uma partida de xadrez e outra. Aliás, ela ouviria aquela canção que agora soava até monótona, jogaria xadrez, apostaria uma noite de amor em um jogo de cartas e plantaria rosas que nunca nasciam, com qualquer outro homem e nada disso lhe apertaria o coração. No banheiro, encarou o espelho.

_ Vazio. É isso que estou sentindo.

É o que foi. Foi toda uma relação vazia. Agora entendia. Aquele silêncio desconfortante que os interrogava às vezes não era cansaço e estresse de um dia de trabalho duro. E aquela indisposição de sair de casa às vezes para um cinema não era simplesmente TPM.

_ Mas foram anos...

De conforto. De um amigo para acompanhá-la nas horas de solidão, de um amante para satisfazer seus desejos, até um ombro para chorar as insatisfações de um dia extremamente atarefado. Abrira mão do amor e de um coração batendo alucinadamente pelo conforto de um fim de semana agradável assistindo TV ou de um verão calmo naquela casa.

_ Verões sem sol.

Passou as mãos pelo rosto, cobrindo seus olhos. Como se sentia cansada! Dormira até tarde aquele dia, mas o cansaço era tanto!

_ Dormi todos esses anos... como fui tola! E...

Olhou-se atentamente, no fundo dos olhos. Vazios. Não eram como os dele.

_ Cruel.

Apagou as luzes do banheiro e saiu. Ele a amara tanto, dedicara-se tanto! E ela sequer conseguia sentir saudades deles juntos, nenhuma mágoa do fim! Suspirou, alguém sempre tem que sofrer, disseram-lhe uma vez.

_ E que não seja eu.

Recolheu a caixa com seus últimos pertences e decidiu deixar a janela aberta. Um pouco de ar fresco na casa daquele homem não faria nenhum mal. Lá fora, uma folhinha despencava do alto de um galho. Missão cumprida, o fim.


Próximo conto ... Fora de Estação.

Até

Ao som de: Morrissey - All the Lazy Dikes.



13.11.07

_ ... Eu a amava, mesmo quando a odiava um pouco.


Esse conto foi escrito para alguém muito especial.



Ebola.

Coloquei a chave na fechadura, a mala pousada ao meu lado. Estranhei ainda não ter ouvido sua voz atrás da porta. Ela sempre me esperava. Estava com saudade, sentindo até um aperto no coração. Queria vê-la, saber se está bem, como foi que passou a semana sem mim. Apostava que estaria morta de saudade também, ficaria muito feliz com minha volta. Talvez estivesse dormindo tranquilamente, por isso ainda não a ouvia. Abri a porta, escorreguei a mão até o interruptor. O apartamento vazio.

_ Reclamações! Sempre reclamações! Vê?
_ Ainda essa ironia! Olhe bem essa frase...
Olhei-a nos olhos, querendo censurá-la. Só me trazia problemas! Mas sequer senti vontade de gritar-lhe alguma coisa, descontar todo meu estresse nela. Era incapaz de responder-me, mas tinha certeza que se pudesse, diria:
_ Desculpa.

Trouxe a mala para dentro e fechei a porta. Cadê você, sem educação, não vem me dar oi? Andei um pouco, fiz um barulho para chamar atenção, mas nada. Simplesmente não estava. Olhei para o relógio na parede e depois pela janela. Que horário para sair, garota! E nesse frio... preocupei-me e mais uma vez senti aquele aperto no coração. Ela não estava lá para me receber. Mas bem que eu merecia aquilo, não é verdade?

_ Uma semana inteira?
_ É, tem que ser assim, não há outra forma. Já pensei em tudo...
Ela voltava naquele momento, chamando nossa atenção. Parecia feliz, aquele brilho nos olhos. Liberdade, ela gostava. Mas gostava da casa e de mim. Sempre senti um amor sincero vindo dela. Cada vez que me chamava com sua voz infantil, eu sentia. E sem querer, eu a amava intensamente, mesmo repreendendo-a todos os dias, às vezes nem ligando que ela estava lá. Mas eu a amava, mesmo quando a odiava um pouco. Seu jeito sereno e meigo por tantas vezes ou aqueles acessos de energia que eu simplesmente não podia entender e me irritavam. Era seu jeito, de sua forma tão peculiar e era encantador.

Deve voltar mais tarde, não vai ficar a essa hora passeando. Em breve estará aqui, vai ficar tão feliz em me ver de voltar, pensei. Abri o quarto, desfiz minha mala rapidamente. Tomei um banho demorado, a viagem tinha me deixado tão cansada! Bebi um chá, ainda com a toalha enrolada na cabeça, assistindo uma coisa qualquer na televisão, sem prestar nenhuma atenção. Meu pensamento estava nela, a preocupação começando a aparecer. Não podia pelo menos avisar? Ri-me, que tola! Olha como estava agindo... Voltará de madrugada, apostei. Chegaria muito silenciosa, comeria algo e deitaria na sua cama. Na manhã seguinte me acordaria e mataríamos a saudade. Provavelmente eu até brigaria um pouquinho com ela. O chá estava acabando. Olhei o fundo da xícara, senti pesar o coração. Afastei aquele pensamento, tomando o último gole e levantei-me para dormir. Mas antes, deixei um pouco de comida. Ela sempre tinha fome de madrugada. Aquela passeadora.

_ Fique quieta, está bem? Está me irritando!
_ Deixa ela...
_ Ah, não! Chega disso! Vá dar uma volta, sua chata!
Levantei-me da cadeira e abri a porta. Saiu rapidamente, mas ainda voltou para olhar-me. Porém, fechei a porta antes que pudesse voltar.
_ Esperta ela, sabe a hora de deixar você sozinha!
_ Um arzinho para pensar no modo como anda se comportando!
Rimos, mas logo o clima tornou-se pesado. Algo muito triste estava para ser dito.
_ E... afinal... o que fará com ela?
_ Você sabe... eu... não tenho outra alternativa. Tenho que deixá-la. Será melhor para nós, principalmente para ela. Um novo lar, vai ser melhor... com certeza será melhor...
_ Não sentirá saudades?
_ E como, você não sabe o quanto gosto dessa pequena... você não imagina...

E não sabia eu mesma até aquela manhã. Quando acordei com o despertador gritando em minha orelha, estranhei. Levantei-me da cama, ainda sonolenta, enrolei-me no roupão, calcei meus chinelos e fui checar a sala. Nada. Aquele vazio, aquele silêncio... tristeza. Cadê você, sua maluca? Passou a noite fora, hein? A farra deve ter sido boa! Entristecida e um pouco chateada, fui para o banho, esquentei os ossos naquela manhã gelada. E antes de deixar a casa para ir para o trabalho, olhei para trás me perguntando se enfim, ela sabia de tudo. Era muitíssimo esperta aquela lá, muito mesmo...
Mas o silêncio e o vazio acompanharam-me durante uma semana e depois nas outras sem fim. Todos os dias eu esperava abrir a porta e dar de cara com ela, aqueles olhos brilhantes, aquela alegria tão presente no seu jeito e carinho que estava sempre pronta para dar. Meu coração murchava toda vez que aquela porta se abria, só o vento me cumprimentando pela manhã. E então, logo ela soube, não era mesmo esperta? Soube do que aconteceria, que ninguém queria contar-lhe, mas mesmo assim soube. E foi embora. Soube que teríamos que nos separar, sua querida companheira não poderia mais compartilhar sua casa e sua cama com ela e, esperta, como sempre, se foi. E poupou-me. Poupou-me da dor da despedida, aquele olhar de quem sabe que nunca mais poderá dar outro olhar, aquele abraço triste de quem sabe que nunca mais poderá dar outro abraço. E foi embora, qualquer outro lugar, assim nenhuma de nós sofreria, o adeus não teria que acontecer. Tão pequena, mas tão esperta.
Esperta como o que era.
Uma gata.
Para minha pequena gata, perdida no tempo.

Próximo conto... ainda não escolhido.

Aguarde.
Até
Ao som de... teclado.