16.9.12
O Pranto e a Pena
4.8.12
Pyromaniac
30.5.12
Algo Diferente
8.4.12

Um conto sobre cartas trocadas
Para um literato, um amor inventado cai muito bem.
Vivemos em uma época veloz. Tudo corre contra o tempo sem vencê-lo.
O mistério perdeu o charme.
A troca de olhares deu lugar para a troca de SMS.
As indiretas entremeadas com esmero em uma conversa foram também substituídas por cutucadas e curtidas em uma rede social.
(Social? Quantas pessoas de lá já tocamos de verdade?)
Ninguém se encontra mais se esquecer o celular em casa.
E só recebemos cartas do banco e dos Testemunhas de Jeová.
Mas para eles, isso não era o bastante.
Vamos correr com o tempo?
Ela era uma romântica que não sabia rimar.
Ele era um cronista boêmio, um escritor de boteco.
E estavam prestes a se apaixonarem.
Por palavras.
Ela era do tipo tímida mortalmente atrevida. E ele, do tipo que tem um sorriso de derrubar barreiras.
O acaso foi que se encontraram em um boteco qualquer, na hora do almoço. Sorriram um para o outro. Ela foi tocada no fundo da alma instantaneamente e se apaixonou por um total desconhecido. Sem saber metade das coisas que a fariam se apaixonar por ele.
E ela o deixou curioso. Ficou fascinado por aquele jeito esquisitinho dela. Era feinha, certo, mas havia algo ali que mexeu com ele também.
Encontravam-se de vez em quando, sorriam-se demoradamente, vasculhavam-se com os olhos sem dizer nada. Ironia, que duas pessoas que viviam para as palavras, quando um do lado do outro, sequer o mais casual conseguiam dizer. Contudo, especialmente por suas almas serem alimentadas por estas tais palavras, sabiam muito bem que quando se olhavam, elas ficavam muito desnecessárias. Quem as conhece bem, sabe o valor e a hora certa. E sabiam. Sabiam bem.
Mas ela era filha dos novos tempos e sua alma imatura urgia por resultados (vãos, um dia ela perceberia), por isso, tomada (possuída) por seu lado mortalmente atrevido, jogou as cartas na mesa. Ainda que de forma estranha: anotou seu telefone (o celular, é claro) em um guardanapo com a frase text me (não sabia por que o escrevera daquela forma, mas tinha que ser assim, entende?).
Quando aquele boêmio pegou o guardanapinho ousado, riu-se. Sabia que era dela. Garota curiosa aquela. Muito curiosa.
Mas ele não ligou. Tinha outras coisas em mente. Muitas outras coisas. E ela simplesmente não conseguiu entrar em sua vida daquela vez.
O tempo passou.
Rápido.
Ela, aquela romântica que, de tanta raiva daquele moço bonito (e frio, frio!), escreveu até um conto mal-educado, tentando esquecê-lo. Aquele pensamento intrusivo. Desrespeitoso. Mas tão bom...
Mas não conseguiu.
Nem ele.
A vida daquele rapaz se agitou, agitou, mudou e o tempo passou também. Mas aqueles olhos castanhos duros (e doces) não saiam de sua cabeça. Quem era ela? O que havia de especial naquela jovenzinha curiosa? Era feinha, mas... veja bem, ela não parece melhor mês após mês?
Agora o tempo corria claramente contra ela. Iria embora para sempre daquelas redondezas. Mas não podia deixa-lo para trás... podia?
Voltaram a se encontram no boteco.
Agora não era mais a pressa só pela pressa que a impulsionou. Era a necessidade.
Conseguiu seu nome. Seu contato no mundo virtual. Pronto, agora não o perderia de vista. Porém, desconfiou que eles nunca mais trocariam palavras. Diretamente, ao menos.
Quando finalmente o encontrou no mundo de mentira, percebeu que não errara. Aquele estranho tinha realmente a cara e o jeito de ser sua alma gêmea. Angustiou-se. Ainda mais quando descobriu que ele era apaixonado também pelas palavras. Ah, por que tanta perfeição, se não podia tocá-lo (nem sequer conversar com ele diretamente)?
Ele também a acessou. Surpreendeu-se. A prova concreta que seus instintos não erraram. Ela era feinha, mas ele se encantou com seu jeito de lidar com as palavras, com o jeito com que ela descrevia olhares como ninguém. Como parecia dividir sua mente com mais algumas pessoas. Como era doce, dura, realista, sonhadora, delicada e crua. Era interessantíssima aquela jovem. Não tinha a cara, mas tinha o jeito de alma gêmea.
Contudo, ele não era adepto do mundo novo. Era amante do mistério e do flerte demorado. Da indireta e da entrelinha. De instigar e interessar.
E decidiu que queria muito conversar com ela.
Mas de seu jeito.
Único e encantador.
Ele esperou que ela postasse um conto. Então ele o respondeu, muito indiretamente. Eu disse muito.
Mas ela percebeu.
Só que não acreditou. Já se dava por vencida, perdida. Já sofria por ter que mais uma vez abrir mão de seu amor inventado, platônico, levado as últimas consequências. Gostava de se lembrar de seu último encontro com ele, quando caminharam pelas ruas juntos. Prendia-se a aquele sorriso que também se via através de suas lentes fortes e quadradas. Daquele jeito de sorrir que só ele tinha. Alimentava-se quase que doentiamente daquela memória. Mas ela não a fazia doente, só curava sua dor. A dor que ela mesma criara.
Entretanto, ela era uma daquelas pessoas que transformava suas dores em coisas produtivas. Como em contos. Como em declarações. Aquele jovem com jeito e cara de alma gêmea, que insistentemente a ignorava na vida real, tornara-se sua Musa (então me deixa ser sua Musa também, já que você incendeia tão insistentemente meus pensamentos?).
Ela levantou instintivamente a sobrancelha esquerda quando leu aquele conto.
Devia estar pirada de verdade.
Doente por causa de uma paixão platônica. Que perdedora.
Postou outro.
Esperou a resposta (a quê?).
Ela veio.
E ele continuou escrevendo.
Ela continuou respondendo.
E do dia para noite, eles finalmente conversavam.
Daquele jeito meio esquisito, meio a moda antiga (retrô, não é?).
Como que se trocassem cartas.
Cartas sem destinatário ou remetente, mas que atingiam exatamente quem queriam.
(Eu sei bem o que você está fazendo aí. E sei fazer também).
E trocaram muito.
Gastaram (e melhoraram) suas habilidades.
Fizeram das palavras seus beijos e abraços à distância.
Envolveram-se e doaram-se.
Conheceram-se através de outros.
Personagens imaginários e mirabolantes que nada tinham a ver com eles. Mas não havia forma mais sincera e profunda de conhecer um ao outro que aquela.
Veio um dia o convite.
(Demorou, mas veio).
Não sei bem de quem partiu, tão confusas e intricadas eram aquelas conversas.
(Muito claras, quase banais, porém).
E um dia, encontraram-se, corpo e alma juntos dessa vez. No mesmo lugar em que colocaram os olhos um no outro da primeira vez.
E beijaram-se como deveria ser, afinal, haviam trocado uma meia dúzia de palavras pessoalmente, mas se conheciam como se conhece a um velho amigo (de infância até).
E viveram, como almas gêmeas devem, felizes para sempre.
(Porque assim escreveram no livro de suas vidas).
Bianca Gregorio
Abril/2012
Até a próxima
=D
18.3.12
Um conto febril, criado debaixo das frondosas árvores de Botucatu, em 2010.
O Monstro
O cotidiano me transtorna.
O médico e o monstro, sabe? O cara bonzinho, bem sucedido, admirado, responsável, etc e tal. Do outro lado da mesma moeda, o maldoso, cruel, sem escrúpulo, pavoroso. Meu azar é que não sou médica, logo, só resta em mim o monstro. Às vezes gostaria de ter um arco e flecha, uma bazuca... melhor, uma faquinha de pão. Tem coisa mais cruel que matar alguém com uma faca de pão? Mas logo esse monstro adormece, preguiçoso e entediado. Sim, meu monstro é tão fracassado que até tem preguiça de continuar com esse tipo de pensamento. Bem que o tédio, que na minha cabeça é um daqueles bonequinhos palitos que se desenha no canto do caderno na aula mais chata, usando um chapeuzinho azul, se esforça. Vai lá, bate na porta da oficina do diabo, são super amigos, encomenda um desses pensamentos estranhos e malvados e dá para o meu monstro processar. Daí, o perdedor me passa umas imagens e alguns impulsos violentos. Mas só. Fica só nisso, dia após dia.
E nem o médico me sobrou. Porque se eu o tivesse, mesmo que eu fosse um monstro maluco e endemoniado, as pessoas me respeitariam. Não me achariam uma louca desvairada, estressada, insuportável, mas sim, um clássico. Passariam tranquilamente por cima de minhas neuroses, ignorariam minhas alucinações. É assim mesmo, diriam, coisa de gênio. Mas eu, meu monstro preguiçoso e meu tédio esforçado, todos nós demos um baita de um azar.
Eu devia ter escolhido outra profissão. Sei lá, ter feito Moda, Letras, Engenharia Química ou até mesmo tentando ser médica. Mentira, eu não posso ver um sanguinho que já desmaio. Mas ainda sim, errei. E ninguém pode me culpar de não ter sido esforçada. Levei sempre os estudos a sério, fiz uma boa faculdade e sonhei com um bom emprego. Queria ganhar dinheiro, ser dona da minha própria vida e não das minhas próprias dívidas. Odeio meu trabalho. Paga mal, é longe e as pessoas são um saco. Toda e cada uma delas. Eu me encho de raiva toda hora que olho para uma pilha de papel em cima da minha mesa. Eu estudei que nem uma idiota para isso? Para na hora santificada do café eu ter que ouvir falar das exatas mesmas coisas e se desconfiar, na exata mesma ordem? Meu marido é um ogro, top 10 das reclamações femininas. Minha mulher engordou e meu time tá jogando mal, empatam nas masculinas. Ninguém é feliz com nada; se chove, quer que faça sol; se faz sol, quer que chova. E ninguém tira a bunda da cadeira para largar o marido ogro ou parar de ser fanático por futebol. E eu também não me movo para matá-los ou pular do décimo quinto andar. Somos todos um bando de amargurados se amargurando cada vez mais. O monstro então ronrona no meu peito, vira para o outro lado e dorme. Desejo rapidamente aquela bazuca, mas logo desaparece o impulso. Eu e o tédio com seu chapéu azul suspiramos, decepcionados.
O trânsito me irrita. Meu carro quebrou há quatro semanas, daí tenho que me enfiar, literalmente, num amontoado de gente estranha e sonolenta dentro de um ônibus logo de manhã. Uma hora a menos de sono, uma hora a mais de mau humor. Quando ia de carro, os quarenta minutos de avenidas engarrafadas na ida e na volta também não eram um incentivo. O CD que eu escutava tinha até gasto, de tanto que rolava. Eu queria abrir a janela e gritar ao mundo que todos saíssem do meu caminho naquele instante. Mas não o fazia. Vai que nesse abrir de vidro alguém viesse me assaltar e eu perdesse o dinheiro que não tenho? Talvez eu saísse do carro e matasse o vagabundo, mas daí, iria para prisão fazer um serviço de presidiária, o que aliás, não deve ser muito diferente do meu. Mas estamos tentando melhorar e solta aqui na selva de concreto eu posso pelo menos trocar de roupa.
Minha casa é pequena. A cozinha é ridícula, cabe metade de uma pessoa cozinhando, e felizmente, sou uma pessoa inteira. O banheiro, se não tomar cuidado, molho a sala. A lavanderia é apertadíssima, minha roupa quase nunca seca de verdade, fica cheirando a mofo e tenho que lavar tudo de novo. Meus vizinhos estão entre velhos malucos, casais homicidas e crianças hiperativas. Sem contar o papagaio da vizinha que ama o hino do São Paulo. Minha casa é pequena, muito pequena. Não cabe nada, eu não caibo nela. Mas eu não caibo no meu corpo. Não caibo na minha vida. Eu quero mais que essa caótica, despropositada e chata vida que me deram. Sim, alguém sádico me colocou nesse corpo, nessa casa, nessa vida ridícula. Eu sonhei mais, eu quero mais, eu lutei por mais que isso. Queria me sentir mais livre, mais feliz, mais satisfeita. Odeio a repetição dos dias... parece um filme desgraçado de ficção, onde a pessoa fez alguma merda muito gigante na vida e foi punida. Daí, acorda todos os dias no mesmo dia, até corrigir a maldição do erro. Mas o que eu errei? O despertador, ou alarme do apocalipse como carinhosamente o chamo, me acorda todo dia para o mesmo dia. O tédio nem acorda mais comigo... logo acordo só.
Eu tento ser gentil, despertar o médico e ser uma maluca clássica. Mas não consigo... quando vou ser educada, nobre, logo me prejudico. Parece que nada que faço leva a lugar nenhum. Eu quero uma casa maior, para minha alma, mas ela nunca chega. Só que o lugar já está atulhado. Além do tédio que divide casa comigo, tem esse monstro, que apesar de preguiçoso e fracassado, é grande demais. E sobra tristeza, desespero, descontentamento que formam pilhas até o teto da minha vida. Já disse, minha vida inteira é como calçar um sapato apertado durante 30 anos. Não cabe. Aperta, machuca. Eu me sinto doente, talvez devesse procurar um médico. Parece que cada dia eu incho mais, como em um processo alérgico à minha vida, a inflamação infiltrada na minha alma, a febre convulsionando minha razão. E cada dia mais, minha vida e meu corpo me parecem mais e mais apertados e desconfortáveis. Um dia eu enlouqueço, se já não o fiz. Um dia meu monstro cria vergonha na cara e levanta, transtornado de loucura. E não vai ser um clássico. Pode apostar.
Até a próxima =D
28.2.12
Um dos meus contos atuais favorito. Aliás, queria um dia vê-lo virar um curta rs.
Azuis da cor do céu
O essencial é invisível aos olhos
Eu sou um cara tímido. Quietão, na minha. Lidar com mulheres sempre foi complicado. Não porque são mulheres; mas porque são pessoas primeiramente. Sei lá por que, só sei que sou assim e pronto.
Gosto de ficar na minha olhando as pessoas passarem, viverem, conversando. É um verdadeiro prazer poder estudá-las, seus gestos, seus sorrisos, o caminhar de cada uma delas. Por isso gosto de ficar nessa praça na hora do almoço, depois de comer, sentar, às vezes só olhando, às vezes com um livro debaixo do braço. Tem um parquinho modesto no centro, está sempre cheio de crianças serelepes gritando e correndo para cima e para baixo. Elas me fazem sorrir. E uma mãe ou babá bonita também. Algumas vezes, gosto de me sentir invisível, só olhando, quase que um vampiro, sugando a energia vital daqueles seres amáveis. Um sujeito estranho, eu sei, eu sei...
Foi numa dessas horas, disfarçando que lia, que a vi. Estava quase do outro lado da praça, majestosamente sentada. Sim, majestosa, pois que altivez tinha a postura daquela mulher! Usava óculos escuros e parecia ali, como eu, uma mera expectadora da vida alheia. Tinha um rosto lindo de doer, um nariz fino de princesa, um cabelo longo e ondulado que lhe caia pelos ombros. Vestia-se elegantemente, um casaco negro com botões prateados. Não conseguia me cansar de olhá-la, admirá-la, desejá-la. Meu horário de voltar ao trabalho chegou e tive que deixá-la, ainda que com medo de nunca mais vê-la.
Nos dias seguintes, nas semanas seguintes, vez ou outra lá estava a mulher que eu não me cansava de olhar. A pracinha perdera até a graça, mesmo com suas pequenas árvores bem cuidadas, seus canteiros de mato crescido e flores começando a nascer. O barulho das crianças parecia um suspiro suave que se juntava ao coro de carros na avenida próxima, tão longe e delicado, que eu só escutaria se prestasse atenção. Mas eu não queria prestar atenção no que passava a minha volta mais; meu olhar ficava perdido nela, tão grave, simplesmente fascinante.
Eu queria saber tudo sobre ela. Gostaria de saber seu nome, sua cor favorita e a rua onde morava. Ela tinha medo de altura, gostava de lasanha? Queria saber que gosto tinham aqueles lábios tão perfeitamente desenhados, se ela se arrepiaria quando eu respirasse na sua nuca, se suas mãos eram quentes e macias, como ela dormia ou como saía do banho. E quanto mais eu a observava ao longe, mais eu queria saber, mais eu a queria inteira, só para mim. Será que era casada? Não, não usava uma aliança pelo menos. Mas poderia ser de outro, e o que eu faria então? Que ciúmes eu fiquei um dia, só de pensar em outro homem a abraçando, sentindo o perfume de seus cabelos tão lindos, tão inebriantes... que inveja! Senti até meu rosto corar e fui embora, envergonhado, querendo lhe pedir desculpas pela minha indiscrição.
Dois meses. Dois meses que eu já almoçava e ia praticamente correndo para a pracinha. Dois meses que a conhecia. Ah, conhecia... eu sentia como se a conhecesse há anos, como velhos amigos e ainda futuros amantes. Acho que já tinha decorado cada traço do seu rosto, cada movimento voluntário e involuntário dela. Ela só sorria, que sorriso lindo, ainda que ligeiramente triste, quando alguma criança passava correndo e rindo por ela. Porém, às vezes, lembrava que éramos totais desconhecidos. Sentia-me de fato invisível. Nunca a peguei olhando para mim. Ou se o fazia, era discreta. Eu gostava de acreditar nessa discrição, afinal, era bem típico dela. Aposto que quando eu baixava os olhos para fingir que lia alguma coisa, ela me olhava. Sabia que eu existia? Ah, que prazer seria! Eu sonhava que ela também tinha me decorado, me conhecia e me recitava de cor. E me amava e desejava. Meu Deus, desesperei-me ao me perceber totalmente apaixonado por aquela mulher misteriosa. Apaixonado! Eu nem sabia o nome dela!
Aquilo era cansativo, uma luta, um amor platônico que estava acabando comigo. Eu estava obcecado e tinha vergonha de mim. Tinha vergonha de me olhar no espelho. Até com cara de doente fiquei. Emagreci, enlouqueci, perdi o rumo de casa. E também me odiava por ser incapaz de arrastar meu corpo até lá e falar com ela. Era séria, tudo bem, mas eu podia tentar conversar. Não é isso que as pessoas fazem? Mas eu me achava tão pouco... tão sem graça fisicamente, tão nervoso para conversar com uma mulher, que a voz mal me acompanhava! E se ela fosse dura comigo? E se me achasse um tarado qualquer, que a perseguia há meses! Chamasse a polícia? Nunca mais eu sairia de casa de tamanha vergonha! Ai, tanta coisa que estuda-la se tornou uma coisa boa, mas que doía, pois mexia com tantos sentimentos mal resolvidos dentro de mim...
Cheguei ao meu extremo. E nesse extremo, criei coragem. Passasse mais um dia, não restaria mais alma no meu corpo para contar história. Só umas cinzas de mim. Naquela tarde, com um sol mortiço embaçado por nuvens cinzentas, não me sentei ao meu banco. Fui em direção a ela, que meu Deus, me fez tremer nas bases, tão divina estava. Usava um cachecol verde, tão macio, emoldurando seu rosto. O semblante era duro, olhava para o parque com seus óculos escuros. Quando cheguei ao seu lado, não fez muito da minha presença. Um vento frio que escorregou pela minha espinha, me fez ir em frente e não correr como um covarde.
_ Com licença, posso me sentar aqui?
_ Claro.
Sua voz tinha a mesma dureza da sua expressão, mas era muito agradável. Poderia passar dias e dias a ouvi-la. Nos meus devaneios doentios, imaginei mil vozes, menos aquela. E era melhor, era confortável, era... segura. Como um abraço.
Relaxei.
_Você trabalha por aqui? É que a vejo sempre aqui na pracinha, sentada nesse banco.
_ Sim, bem perto. Estou na minha hora de almoço.
Ela não me olhava. Parecia entretida com algum acontecimento a nossa frente. Mas era educada. E eu não tinha mais medo.
_ Eu também trabalho aqui por perto. Adoro esse lugar para descansar o pensamento.
_ De fato, é um lugar muito agradável.
_ Posso dizer uma coisa?
_ Pode sim.
_ Você é uma mulher muito bonita. Tem um jeito encantador.
Achei que a terra fosse me engolir. Achei também que ela me daria um chute e sairia correndo. Ou simplesmente me ignorasse. Meu coração disparou de tal forma, que achei que ele realmente sairia pela boca.
_ Você acha é?
_ Sim, mas me desculpe, não quero parecer atrevido, nem nada do tipo.
_Pelo contrário, você é um homem muito gentil.
Ela se virou para mim, finalmente.
_ Posso te ver também?
_ Sim...
Fiquei sem entender, desconsertado, até que ela levantou seus óculos escuros e notei, agora os olhando bem de perto, um profundo vazio, um abismo. Ela não me focava.
_ Com licença, sim?
_ Toda...
Ela então me tocou, seus dedos gelados, finos e macios como na minha imaginação. Fechei meus olhos e senti seu toque que era tão delicado, quase carinhoso. Eles percorreram pacientemente meu queixo, minhas bochechas, meu nariz estranho, o contorno dos meus olhos, minha testa, minhas marcas de expressão. Senti que ela não tocava minha pele e a estudava, mas sim a minha alma.
Abri os olhos e a vi sorrindo. Agora sim, agora sim ela era linda. Antes, aquela mulher que me obcecou, sim, era bonita, mas aquele sorriso a transformou e a iluminou.
_ Você também é um homem bonito, não? É uma pena, porém, que eu não possa ver a cor dos seus olhos...
Segurei-lhe amavelmente as mãos. Ela retribui, deixando-as entre os meus dedos.
_ São azuis. Azuis da cor do céu.
....
Do pseudo-livro Vendem-se Histórias de Amor.
Até a próxima.


