16.9.12

O Pranto e a Pena


Esse não é um dos meus melhores contos, mas é o que tenho de mais novo. Espero que gostem. 


O pranto e a pena


OBS: Nenhuma lágrima foi derramada durante a criação deste conto.

O pranto é praticamente a primeira linguagem que o ser humano conhece. Quando somos tão pequenos e frágeis, tudo que sabemos para dizer ao mundo o que sentimentos, seja dor, fome, solidão (que nos acompanhada desde o momento que somos separados da segurança de nossas progenitoras), é chorar. A angústia que nos acompanha desde o começo, mas funciona. Uma mãe sempre sabe o tipo de choro de seu filho. E mesmo que com o tempo, aprendamos a nos comunicarmos de maneira aparentemente mais refinada, muitas vezes as palavras nos faltam de tal forma, incapazes de traduzir o absurdo crescente dentro de nós, que retornamos às nossas origens e choramos. Choramos até nada mais importar, até o os olhos arderem, o fôlego faltar e as coisas parecerem melhores, como se as lágrimas pudessem realmente lavar a alma.
E ela, que vivia e amava as palavras, via-se em situação parecida. Ela, que tão habilidosa fez delas sua vida, sua profissão, encontrava-se com a mente calada sobre aquele assunto. Mas não o coração. Ah não, esse parecia ter uma voz grave e continuava a lhe perturbar o dia e o sono. Algo sinistro acontecia nela, algo que doía, crescia, amargurava. E tudo que queria era poder falar sobre aquilo, como se assim, compartilhando seus mais íntimos e sombrios sentimentos, pudesse suavizar seu sofrer. Contudo, não havia jeito de botar para fora aquela coisa horrenda. Sentava-se, já se frustrando pela previsão de fracasso, a frente da tela do computador ou da folha vazia, todas inquisidoras e levanta-se, dez minutos depois, correndo de si mesma, de sua falta de êxito, dos próprios pensamentos que não a deixam.
Quase três anos de silêncio. Ela desconfiou no principio, quando toda a dor ainda era felicidade, muita felicidade, daquelas extasiantes, de tão forte que cega, que havia algo de peculiar. Escrevia até para o gato que dormia na janela do vizinho, sobre aquele único beijo com aquele desconhecido, sobre as cores que pintavam o céu durante o ocaso. Tudo era material para preencher o papel, libertar a alma. Achava-se quase uma alquimista por vezes, por transformar toda dor e desespero em coisas cheias de beleza, de poesia... arte. Todavia, todas as vezes que tentou dizer algo ao papel sobre o que sentia sobre o assunto, a poesia morria dentro de sim, uma greve de silêncio. O amor continuava alimentando-a, dando-lhe forças... mas suas palavras simplesmente se recusavam a participar da celebração. E a felicidade era tanta e o mundo tão cheio de outras possibilidades muito mais literárias, que se esqueceu da peculiaridade e continuou a viver, completamente entregue as coisas boas e lindas que vivenciava. Riu-se, desafiadora, um dia, acreditando que a vida real algumas poucas vezes poderia ser melhor que a ficção.
Hoje, em retrospectiva, parecia-lhe que tudo aquilo fora uma grande idiotice de sua parte. E como castigo, até a ficção queria lhe abandonar. Como ele fez. Sabia que ela nunca faria efetivamente, era leal. Sabia que um dia conseguiria falar disso, quando estivessem as feridas seguramente cicatrizadas, quando fosse saudável discursar sobre a dor. E sobre aqueles sentimentos, aquela estranheza. Doía sem parar, doía quando ela achou que ia parar de doer. Eram lacerações surpresas, tiros disparados ao acaso que a acertavam diretamente no peito sem aviso, sem fazer barulho.
Olhava a situação de longe, sem querer olhá-la realmente, mas tinha que fazê-lo. Tinha que assistir ao enterro de suas últimas certezas, que agora tinha segurança que foram certezas que elas mesma imbecilmente criou. Cegada de amor, encharcada de endorfinas. Algumas horas não sabia de onde vinha aquela raiva, sim era raiva, um sentimento pungente, amargo, feio. Mas não vinha só, de forma alguma. Analisando com a calma fria de quem corta os pulsos por uma curiosidade mórbida, via que aquela raiva também se misturava a uma decepção cortante, a uma frustração que gritava contra si própria, a desesperança e o desassossego. Havia algo vivo dentro dela, se mexendo, crescendo, dilacerando sua mente. Não podia lutar contra aquilo. Não adiantava tentar se encher de compreensão, acreditar em um mundo melhor, que a vida ia continuar. Não ia. Não enquanto não colocasse aquilo para fora, expelisse sua alma e pudesse vê-la menos suja, menos doente. Não cessaria tal angústia enquanto não houvesse perdão. E como era difícil perdoar!
Havia de perdoar a ele, o imperdoável fato de sua fraqueza ou ainda pior, de suas más intenções. Qualquer um que fosse o motivo, por quê? Por que deixá-la viver naquela felicidade de mentira? Odiava a mentira mais que tudo. E a fraqueza dele, sua própria, ainda maior. Porque não estavam todos os indícios bem explícitos para ela, jogados em sua cara? Por que decidiu ignorá-los e caminhar para o esgotamento do que um dia fora, sinceramente, belo? Sua covardia de deixar o castelo em ruínas custara-lhe as últimas forças, os últimos fiapos de dignidade que os envolviam.
Como assim, era tão difícil deixá-la? Que comodismo barato, sujo! Que coisa horrível fingir que era amor, e ainda fingir-lhe mal, alimentando-a com migalhas esporádicas, sem promessas, só um contínuo vamos fingir que estamos bem. Por que tudo aquilo? Se por detrás de suas costas, ria-lhe de sua ingenuidade disfarçada de controle, de descolamento. Está tudo bem, somos um casal bem resolvido. Claro, ela era resolvida a ser uma fracassada e aguentar-lhe todas as intempéries de gênio terrível entremeados por momentos doces e divertidos que lhe sanavam a carência, que afastavam a insegurança e o terror. Pois sim, vivia aterrorizada, vivia em constante luta para mantê-lo ao seu lado, falsamente ao seu lado, para manter vivo aquele amor, que lhe parecia tão verdadeiro, tão determinado. Ah, que a raiva maior, ainda maior do que da falta de consideração e respeito dele, era por si mesma, pela sua ignorância, por ter fechado os olhos por tão pouco, ter perdido tempo esmurrando uma parede de concreto duro e consciente. Um dia ele vai ver, vai crescer e ver que as coisas são diferentes, que ele precisa me levar a sério. Ah, um pouco de prepotência, uma santa arrogância em alguém com tão pouca autoestima, quase que um sorriso sardônico do destino. Não, o tempo, o sagrado tempo que ela vinha sacrificando em um desejo que morria em si, mostrou-lhe que ela nunca fora mais nada que um companheiro de bar e uma cama quente durante a noite. E todo o amor, a beleza, a poesia que pregava na sua vida, onde foi parar? Dentro de seus sonhos, sonhados acordados, feitos em agrados, em compreensão, desperdiçados. A máscara de amor verdadeiro e maduro caiu e quando caiu, caiu dura e partiu-se em mil pedaços de verdades cruéis, penetrando e fazendo sangrar um coração que agora, parecia mais duro que sua antiga resolução de que aquilo devia ser amor. Mil pedaços de momentos, antes fantasiados em alegria, agora encravados de dor, de ressentimento.
Os sentimentos gritavam-lhe bem alto, sem decoro: COMO VOCÊ PODE SER TÃO OBTUSA?
Cansaço, sua alma em eterno desassossego, quando finalmente parecia que ia voltar ao estado de paz solitária, ficou sabendo mais. E naquele momento cruel, queria muito ser ignorante de novo. Ignorar a felicidade do outro. E outro sentimento, esse mesquinho, esse infantilizado e mal, detonou o resto de sua sanidade: por que ele conseguiu seguir em frente e eu não? Não que houvesse amor ou ilusão nela, não, tudo já fora por água abaixo, mas afinal essa sensação eterna de chateamento, de perda, de vazio... como se o amor que ela tivesse criado e plantando dentro do peito, tivesse sido arrancado com crueldade. Era quase uma impressão física, uma dor na altura do peito, uma incessante falta de ar. Ele não só seguira em frente como também a substituíra por uma pobre coitada. Pobre coitada, porque, quem era aquele homem com que ela dormira tantas noites? Quem era ele na verdade? Como alguém pode mudar tão rapidamente? Por que aquela outra, recém-chegada, merecia ganhar tão rapidamente tudo que ela lutara por anos e anos? Uma injustiça. Sentiu-se mais vazia ainda, sentiu-se mais usada, mais tola e aquilo a sufocava mais e mais.  Sentia vontade de gritar, gritar com ele, na cara dele, que ele era um merda, um mentiroso! Um grande mentiroso! Quem é você? Quem foi que eu dia amei, quem foi que um dia pensei em passar o resto dos meus dias ao lado, que sacrifiquei tanto, que suportei tanto! Quem é você?!
O grito morria na garganta, nos pesadelos que infestavam suas noites. O grito morria na dor, na dor de não conhecer mais a ele, de não conhecer mais aos próprios sentimentos, que sua época mais feliz era também a mais nebulosa, contaminada por dúvidas, desnudada por verdades tristes e mortificantes. E não gritaria na cara dele, não compartilharia com ele seus sentimentos mais negros, suas aflições. Jamais. Havia ainda em si um resto de uma conduta limpa, de um orgulho protetor. Ainda que aquelas coisas imundas que sentia lhe dilacerassem o peito e a pusessem louca, nunca deixaria que ele soubesse. Nunca diria uma palavra de sua dor, de sua quase morte, porque haveria de nascer de novo, melhor. Nunca descer do salto, nunca dar o braço a torcer. Por mais que a torturasse, por mais que às vezes a frustração se confundisse com ódio homicida, ela sabia que tudo aquilo era passado. E estava sendo enterrado. Aos poucos. A imagem de dias felizes sumiria aos poucos. A ferida cicatrizaria, não sem agonia, sem sangrar, mas fecharia e seria uma linha esbranquiçada no tecido sentimental. Estaria ali, para sempre lembrá-la do que foi feito e não deveria jamais ser repetido. A entrega dissoluta de seu coração a um ideal que andava. Nunca fechar os olhos tão fortemente que não se consiga mais abri-los. E finalmente, confiar em seus instintos. Eles sempre lhe disseram, em sussurros sufocados que havia algo errado ali. Algo que não ia acabar bem.
E por não conseguir dizer tudo isso, simplesmente não achar palavras em seu universo para expressar o que havia no seu coração moribundo, é que essa mulher que vivia de palavras se rendeu a primeira forma de expressão que conheceu: tão pura, tão sincera, que seria impossível colocá-las no papel ou compartilhá-las de forma diferente do que ela fez: chorou. O pranto amargo que queria dizer que sofria, mas estava cansada de sofrer. Cansada de alimentar a própria miséria. Chorou, chorou e quando terminou, estava liberta.  E não tinha mais nada a dizer sobre o assunto. Nunca mais. 

4.8.12

Pyromaniac


Pyromaniac 



Seus pensamentos estavam confusos e nebulosos. Eles já o eram costumeiramente, sem dúvidas, mas agora eram ainda mais. O que estava fazendo mesmo? Quem estava fazendo aquilo mesmo? Por que estava fazendo, afinal? Os pensamentos tinham inicio, sim, conseguia iniciar uma ideia, mas eles não se concluíam, ficavam perdidos, logo algo que parecia mais importante os interrompia, aquela linha tênue de raciocínio.
Quando se deu por desperta deste turbilhão de questionamentos, viu claramente suas mãos, as suas mãos, soltando o fósforo acesso em direção a uma generosa poça de álcool. Sem demora começou o fogo, aquele laranja demoníaco, tremulando com vida própria. Fogo, fogo! Fogo dentro de sua casa, dentro do seu quarto! Dentro dos confins de sua mente... Assustou-se, sem entender direito o que acontecia, assustou-se ainda mais por não saber o que deveria fazer a partir daquele momento. Em um instinto, saiu do quarto, apressada e foi ao próximo. Colocou-se a frente da janela aberta, aterrorizada, dando as costas para aquele pesadelo. Mais por não conseguir pensar direito que por causa de qualquer outra coisa. Ouviu o crepitar petulante e modesto das recém-criadas chamas. Deviam ser as vozes. Só poderia ser coisa delas.
Os pensamentos começaram a clarear. As vozes. Sentiu o cheiro áspero da fumaça começando a se espalhar pelos cômodos. O som do fogo crescendo. Desejou poder rezar, mas não se lembrava das palavras. Pai nosso que estas nos céus... o resto não vinha facilmente. Não ficou muito chateada com isso, até porque duvidava que Ele a ouviria. As vozes. Daria atenção para ela agora? Sentia-se esquecida por Ele, relembrando flashs amargos. Sentiu-se por muito tempo amaldiçoada, na verdade.
As vozes. O peso do odor da fumaça se intensificava e estava bem ali na janela escancarada, o céu dolorosamente azul. Um céu que lembrava liberdade. Mas se o céu inspirava essa liberdade e Ele morava lá no alto, não haveria lugar para ela. As vozes que ressonavam em sua cabeça. O médico dizia que elas não existiam. Mas como não? Eram claras, vorazes e incansáveis. Diziam-lhe coisas horríveis. Eram ruins e as pessoas que as pronunciavam deveriam ser ainda piores. Que tipo de pessoa boa ouve tais coisas? Pior, se aqueles médicos de rostos duros e atitudes pouco amigáveis tivessem razão, elas de fato não existissem, que tipo pessoa era ela? O tipo de pessoa que merecia muito bem o que estava prestes a acontecer. 
Forçou um pouco a memória enfraquecida, tentando se lembrar da primeira vez que as ouviu. Só veio o medo à memória, aquele medo mordaz, ao perceber que elas não vinham de lugar nenhum. De ninguém. Vivo, ao menos. Seriam fantasmas? Teria enlouquecido? Contudo, no começo, elas eram gentis. Conversavam coisas bobas, faziam piadas inocentes. Era bom. Alguém para lhe fazer companhia, enfim. Alguém com quem conseguia travar uma conversa sem olhares recriminatórios. Sem desprezo, sem tédio, com muita paciência. Se fosse um fantasma, seria um do tipo bom. Achou um amigo que a entendia, sem julgá-la.
O cheiro de borracha queimando lentamente começou a irritar seus olhos. Mas, do nada, houve outras vozes. Tinham um som etéreo, metálico, rouco e mau. Causavam-lhe arrepios. E diziam coisas ruins. Sobre os outros. Sobre sua família. Palavras ruins e violentas. Muito violentas. E coisas ainda mais terríveis sobre ela. Como era fraca, inútil, um peso. Como todo mundo não sentiria sua falta se morresse. Como seria bom se aquela faca cortasse seus pulsos, a sensação do sangue quente escorrendo deveria ser muito boa. Quase prazerosa. Ou pular daquela janela. A sensação de não ter peso. De não ser um peso. Vencer. Voar. Deixar aquele mundo injusto. Olhe como as pessoas olham para você, com desprezo, nojo, pena. Um verme.
Um dia não aguentou mais. Sentiu a alma sair do corpo. Vazio. Escuridão e silêncio. Uma paz sinistra. O silêncio, todavia, era bom, sem fim. Sem peso. Sem medo. Liberta. Havia morrido?
Foi quando aquele médico lhe perguntou se ela ouvia vozes. Como elas eram. O que diziam. Ela as conhecia? Você é esquizofrênica. Tome essas pílulas todos os dias. Uma pílula laranja. Um laranja intenso, de doer os olhos. Virou-se e reviveu aquele laranja em forma de chamas, que lambiam as paredes do corredor central. Eram bonitas até. A fumaça se adensou. É claro. Isso tudo era coisa das vozes. Saiu da janela e se sentou, abraçando os joelhos, no canto mais distante da porta. Será que conseguiria lembrar-se da oração inteira? Mais ainda nada adiantaria. Com vozes ou sem elas, estava condenada. O indizível, ela estava fazendo. Ela. Fora sua mão que riscou o fósforo. Talvez o fogo a purgasse. Talvez esta fosse sua última chance de ser salva.
Os comprimidinhos laranjas fizeram muito bem seu papel. Vivia naquele silêncio. Aquelas vozes horripilantes haviam sumido. Quase perdera sua vida, se perdera na escuridão, mas tinha a chance de recomeçar. Isto é, se conseguisse se acostumar com os dedos acusativos e os olhares desconfiados. Esquizofrenia? Que quer dizer? Quer dizer que você é doida. Doidinha de pedra. Contudo, o silêncio dentro de sua cabeça era melhor que tudo. Mais importante que qualquer outra coisa. Podia até aguentar todos os olhares pesados. Era só desviá-los.
Sentia agora o calor do incêndio invadir o quarto. Invadir seu corpo debilitado. Sua mente instável. Seu instinto mais básico e visceral gritava para que fugisse. Que lutasse. Corra! Pule pela janela! Grite! Lute! Lute... lute pelo menos mais um pouco. Contudo, continuou imóvel, não tinha mais forças. Desde o primeiro dia que elas voltaram. Os sons do inferno. Como aquelas labaredas, destruindo tudo que tocavam. Cada pedaço de sua vida que nem valia a pena. O que sobrara dela, se algum dia fora alguma coisa realmente? Restava o receio paranoico de ouvi-las, de contar para alguém. E se a trancafiassem em um daqueles lugares horríveis dos quais ouvira falar? Sozinha com seus próprios demônios? Sujos, solitários, onde só lhe restaria a dor, dor... Sobrava a dor. Tudo que restava dela e nela era a dor. Estava sendo consumida por dentro, por todas aquelas sensações grotescas. E se o fogo a consumisse por fora, aquela carcaça vil que apodrecia enquanto respirava, estaria livre.
Levantou-se e fechou a janela. Deixou sua última chance para trás. E onde estavam agora aquelas malditas vozes? Na hora mais difícil, elas não poderiam trazer algum conforto? De não ter que padecer sozinha mais uma vez? Estava finalmente se entregando aos desejos maus, aos conselhos incansáveis. Mas não, se tivesse que sofrer, sentir as chamas se alimentarem dela e de sua alma pútrida, teria que ser só. Será que Ele, que fez por ignorá-la a vida toda, veria isso como seu último sacrifício e finalmente conseguiria a paz e o perdão? Não, não. Deus castiga os suicidas. Eles vão para um lugar ruim. Um lugar que parecia sua vida. Vazia. Amedrontada. Triste. Escura. O silêncio eterno. Mas pensando bem, um pouco de silêncio não lhe faria mal...
Voltou para o seu canto isolado. Agora era questão de tempo. Se tivesse sorte, uma palavra que não conhecia, desmaiaria por causa da fumaça densa. Era difícil de respirar. Prenderia o grito de uma vida inteira por mais alguns minutos. Via as chamas cada vez mais próximas, o calor incandescente queimando-lhe o rosto, fazendo arder suas narinas. O ar, o ar faltava-lhe... o ar. Não era agora que sua vida inteira.. devia lhe passar pelos olhos? Como um filme... onde... seus poucos momentos felizes...estariam em alto contraste? Era difícil pensar... por que não lutara mais? Por que... não... correra? Covarde... covarde...covarde...seu fim...você...merece. Olha, não é que... elas voltaram? As vozes... vieram me buscar... vão me levar para o.... inferno? 

30.5.12

Algo Diferente




Algo diferente

_ Vamos fazer uma loucura?
Quando se deu por si novamente, já ouvia a buzina à porta de casa. Levantou-se em corpo e consciência, colocou a pequena mochila nas costas e partiu.
Chovia, garoa pesada, daquelas que você crê que não molha nada, mas quando olha suas roupas, estão salpicadas por muitos pontinhos brilhantes e gelados. Apressou então o passo e entrou no veículo. Sua primeira impressão foi do perfume doce e floral que o envolveu de pronto e em seguida seus olhos também foram capturados pela criaturinha ousada ao volante. A cor de seus cabelos incendiava seu rosto paradoxalmente infantil e sensual. Todavia, não era a beleza que o atraia: era sua força e vitalidade. Dois imãs.
Vários quilômetros foram rodados, entremeados por conversas quase formais. Havia aquela estranha tensão entre os dois, só contornada por um inesgotável bom humor. Entre um espaço de silêncio desconfortável e outro, ele admirava a paisagem, que tinha a beleza imóvel dos dias frios e melancólicos. Contudo, aquela vista não o deixava entristecido, mas acalmava seu corpo que se encontrava possuído por uma ansiedade febril que tornava quase que impossível a tarefa de se manter sentado pacientemente. Ela, impassível, mantinha o bom ritmo da conversa, dirigindo atenta e tranquilamente.
_ Que tal aqui?
_ Tem uma cara boa. Será que é caro?
_ Olha lá; eu fico aqui de pilota de fuga.
Não agradados pelas condições, andaram um pouco mais.
_ Ali, olha, ali!
_ Hum... parece ideal. Vamos.
_ Rápido, antes que fiquemos encharcados!
_ Não tem problema, tomamos algo quente...
_Tipo um banho?
_ Eu ia sugerir um chá, mas um banho deve servir...
Sorriram-se com cumplicidade.

Entraram no minúsculo e rústico quarto do hotelzinho. Colocaram suas poucas bagagens em cima da cama de casal, que pelo menos, era espaçosa e tinha ares de confortável.
Ele se jogou em seguida para testá-la. A jovem foi checar as condições do banheiro.
_ A cama é ótima! Será bem útil...
_ O banheiro também serve. Não é o mais limpo e confortável e talvez tenhamos um banho não tão quente como gostaríamos...
A voz dela parecia vir de longe, muito longe. O dia morria através das cortinas empoeiradas, deixando todo o quarto mergulhado em uma penumbra mortiça. A chuva diminuíra e só se escutava um restinho caindo dos telhados. Aquele cenário lhe pareceu extremamente sensual. Sentiu os pelos da nuca arrepiarem pela expectativa. Então ela surgiu, apoiada no batente da porta do banheiro, aquele sorriso quase tímido no rosto. Deu alguns passos em direção ao centro do quarto, deslizando pela escuridão crescente. Ele levantou, enlouquecido por aquele momento. Puxou-a pela cintura, para bem perto dele e começou a beijá-la intensamente, apertando-a contra ele com força. Ela retribuía, entregue, solícita. Quando já estavam quase sem ar, em meio a beijos sôfregos que ele praticamente impunha a ela, o rapaz começou a tirar a blusa. Ela o afastou de leve, com muita delicadeza e esperou o ar voltar um pouco. Tornou a se aproximar e segurou em sua cintura, mantendo aquele olhar firme e terno. Aproximou-se de seu ouvido:
_Vamos com calma... hoje não temos pressa, certo?
E o beijou com carinho, mas aquele beijo delicado o deixava ainda mais excitado. Sentia-se tão inexperiente perto dela, que teve medo, outrora, de que chegassem a aquele momento. Na verdade, o que lhe preocupava era a segurança e a tranquilidade com que ela lidava com tudo aquilo. Ele se sentia um pouco como um adolescente à mercê de hormônios e ela parecia mesmo que com aquele jeito quase submisso, conduzia toda a situação, com elegância. Sentia que ela poderia fazer dele o que bem entendesse. Contudo, naquela altura do campeonato, tanto fazia.
As mãos macias e pequenas daquela jovem escorregavam pelas costas dele, fazendo com que cada fio de cabelo de seu corpo se eriçasse, os suspiros profundos que vez em quando ela soltava perto de seus ouvidos eram lancinantes. Ele tentava se segurar, para não jogá-la contra a cama com violência, ainda mais quando seus dedos deslizavam em seu couro cabeludo, vigorosamente. Ele, então, sem desgrudar seus lábios dos dela, a puxou, agora com mais suavidade, em direção à cama e se sentou, deixando-a  apoiada em seu corpo e, com um pouco de autocontrole, levantou a blusa da jovem delicadamente. A pele estava gelada ao toque. Achou que fosse se derreter em êxtase; a última coisa que viu, antes da escuridão os engolir por completo foi que ela o olhava de maneira diferente. Por um momento, parou tudo que estava fazendo e pensando para olhar bem para aquele rosto semiobscurecido pelas sombras: sua mandíbula tremia de leve. E não era de frio. Em seus olhos também jurou ter visto um lampejo daquilo: era medo. Sorriu, satisfeito quando algo mexeu dentro de seu peito. Estavam na mesma sintonia. Puxou mais uma vez o corpo dela para si e foram cobertos pela noite.

Quando finalmente voltou a pensar direito, as luzes estavam acessas e seus olhos se abriam com dificuldade. O espaço onde ela deveria estar na cama encontrava-se vazio ao tato.
_ Ei, bela adormecida. Dormiu bem?
_ Bela adormecida é o ca...
Ela estava sentada à pequena mesa de canto, com uma taça de vinho tinto entre os dedos.  Os cabelos estavam bagunçados e caiam em seus ombros muito brancos, quase nus. Aquela imagem fez seu corpo acabar de despertar.
_Quer?
_Por favor.
A jovem lhe entregou uma taça e voltou a se sentar, distante. Ele não questionou e tentou apreciar o vinho. Tinha um gosto refinado que combinava com ela.
_De onde surgiu tudo isso?
_Trouxe em minha mala mágica.
_O que mais tem nela?
_Oh, algumas coisas ainda. É cedo.
Sorriram-se, com muito mais cumplicidade que há poucas horas.
_Você é do tipo de mulher que todo cara quer, né?
_Hahaha, na teoria sim...
Seu riso era ligeiramente amargo. Como se aquilo fosse algum tipo de ironia cruel.
_Como é que...
_ Eu estou sozinha ainda?
_É.
_ Responda você.
_ É diferente... são as circunstâncias...
_Eu sei. Vai me jurar que quando as circunstâncias mudarem, estaremos juntos para todo o sempre?
Ele engoliu seco. Que cilada!
_ É brincadeira, meu querido. O que nós temos é diferente, não é?
_ É sim..
Calaram-se. Aquele desconforto. Aqueles assuntos que não deveriam ser permitidos. Mas já havia começado. E como juntar os cacos de um vidro já partido?
_ O que você quer de mim?
_ Mais...
_ Não, é sério. O que você quer de mim? Você disse para eu jurar...
_Você não faria nada isso.
_ E por que não?
_ Você não quer me enganar. E nem precisa.
_ Mas isso é o que eu quero ou não quero. Eu perguntei o que você quer.
_ E isso interessa?
_ Sim, é lógico.
_ Por quê?
Ele a chamou com um gesto. Ela deixou a taça sobre a mesa e se dirigiu relutante para a cama. Tentou manter-se distante, mas ele a puxou para si com força. Demorou-se olhando para ela. Ali estava, mais claro que nunca: medo.
_ Você tem medo de se machucar?
_ Não...
_ Então... do que você tem medo?
_ Eu não sei o que quero da vida, sinceramente. Normalmente eu sei, mas... agora eu tenho essa coisa dentro de mim, irrequieta.
_ Você tem medo de... errar?
_ Não.
_ Do que então?
_ Eu não quero ser injusta. Não quero enganar ninguém. Eu não posso.
_ Por que não pode?
_ Porque eu me ser recuso a ser cruel com alguém que gosto...
_ Nós temos algo diferente mesmo, não é? E é bom...
_ Sim, temos... é bom sim. Como este momento...
_Podemos então...
_ Apague as luzes.
 Riram-se, enquanto se embrenhavam naquela noite que não deveria ter fim.

8.4.12


Acabou de sair do forno... ;)

Um conto sobre cartas trocadas

Para um literato, um amor inventado cai muito bem.

Vivemos em uma época veloz. Tudo corre contra o tempo sem vencê-lo.

O mistério perdeu o charme.

A troca de olhares deu lugar para a troca de SMS.

As indiretas entremeadas com esmero em uma conversa foram também substituídas por cutucadas e curtidas em uma rede social.

(Social? Quantas pessoas de lá já tocamos de verdade?)

Ninguém se encontra mais se esquecer o celular em casa.

E só recebemos cartas do banco e dos Testemunhas de Jeová.

Mas para eles, isso não era o bastante.

Vamos correr com o tempo?


Ela era uma romântica que não sabia rimar.

Ele era um cronista boêmio, um escritor de boteco.

E estavam prestes a se apaixonarem.

Por palavras.


Ela era do tipo tímida mortalmente atrevida. E ele, do tipo que tem um sorriso de derrubar barreiras.

O acaso foi que se encontraram em um boteco qualquer, na hora do almoço. Sorriram um para o outro. Ela foi tocada no fundo da alma instantaneamente e se apaixonou por um total desconhecido. Sem saber metade das coisas que a fariam se apaixonar por ele.

E ela o deixou curioso. Ficou fascinado por aquele jeito esquisitinho dela. Era feinha, certo, mas havia algo ali que mexeu com ele também.

Encontravam-se de vez em quando, sorriam-se demoradamente, vasculhavam-se com os olhos sem dizer nada. Ironia, que duas pessoas que viviam para as palavras, quando um do lado do outro, sequer o mais casual conseguiam dizer. Contudo, especialmente por suas almas serem alimentadas por estas tais palavras, sabiam muito bem que quando se olhavam, elas ficavam muito desnecessárias. Quem as conhece bem, sabe o valor e a hora certa. E sabiam. Sabiam bem.

Mas ela era filha dos novos tempos e sua alma imatura urgia por resultados (vãos, um dia ela perceberia), por isso, tomada (possuída) por seu lado mortalmente atrevido, jogou as cartas na mesa. Ainda que de forma estranha: anotou seu telefone (o celular, é claro) em um guardanapo com a frase text me (não sabia por que o escrevera daquela forma, mas tinha que ser assim, entende?).

Quando aquele boêmio pegou o guardanapinho ousado, riu-se. Sabia que era dela. Garota curiosa aquela. Muito curiosa.

Mas ele não ligou. Tinha outras coisas em mente. Muitas outras coisas. E ela simplesmente não conseguiu entrar em sua vida daquela vez.


O tempo passou.

Rápido.


Ela, aquela romântica que, de tanta raiva daquele moço bonito (e frio, frio!), escreveu até um conto mal-educado, tentando esquecê-lo. Aquele pensamento intrusivo. Desrespeitoso. Mas tão bom...

Mas não conseguiu.

Nem ele.


A vida daquele rapaz se agitou, agitou, mudou e o tempo passou também. Mas aqueles olhos castanhos duros (e doces) não saiam de sua cabeça. Quem era ela? O que havia de especial naquela jovenzinha curiosa? Era feinha, mas... veja bem, ela não parece melhor mês após mês?

Agora o tempo corria claramente contra ela. Iria embora para sempre daquelas redondezas. Mas não podia deixa-lo para trás... podia?


Voltaram a se encontram no boteco.

Agora não era mais a pressa só pela pressa que a impulsionou. Era a necessidade.

Conseguiu seu nome. Seu contato no mundo virtual. Pronto, agora não o perderia de vista. Porém, desconfiou que eles nunca mais trocariam palavras. Diretamente, ao menos.

Quando finalmente o encontrou no mundo de mentira, percebeu que não errara. Aquele estranho tinha realmente a cara e o jeito de ser sua alma gêmea. Angustiou-se. Ainda mais quando descobriu que ele era apaixonado também pelas palavras. Ah, por que tanta perfeição, se não podia tocá-lo (nem sequer conversar com ele diretamente)?

Ele também a acessou. Surpreendeu-se. A prova concreta que seus instintos não erraram. Ela era feinha, mas ele se encantou com seu jeito de lidar com as palavras, com o jeito com que ela descrevia olhares como ninguém. Como parecia dividir sua mente com mais algumas pessoas. Como era doce, dura, realista, sonhadora, delicada e crua. Era interessantíssima aquela jovem. Não tinha a cara, mas tinha o jeito de alma gêmea.

Contudo, ele não era adepto do mundo novo. Era amante do mistério e do flerte demorado. Da indireta e da entrelinha. De instigar e interessar.

E decidiu que queria muito conversar com ela.

Mas de seu jeito.

Único e encantador.


Ele esperou que ela postasse um conto. Então ele o respondeu, muito indiretamente. Eu disse muito.

Mas ela percebeu.

Só que não acreditou. Já se dava por vencida, perdida. Já sofria por ter que mais uma vez abrir mão de seu amor inventado, platônico, levado as últimas consequências. Gostava de se lembrar de seu último encontro com ele, quando caminharam pelas ruas juntos. Prendia-se a aquele sorriso que também se via através de suas lentes fortes e quadradas. Daquele jeito de sorrir que só ele tinha. Alimentava-se quase que doentiamente daquela memória. Mas ela não a fazia doente, só curava sua dor. A dor que ela mesma criara.

Entretanto, ela era uma daquelas pessoas que transformava suas dores em coisas produtivas. Como em contos. Como em declarações. Aquele jovem com jeito e cara de alma gêmea, que insistentemente a ignorava na vida real, tornara-se sua Musa (então me deixa ser sua Musa também, já que você incendeia tão insistentemente meus pensamentos?).

Ela levantou instintivamente a sobrancelha esquerda quando leu aquele conto.

Devia estar pirada de verdade.

Doente por causa de uma paixão platônica. Que perdedora.

Postou outro.

Esperou a resposta (a quê?).

Ela veio.


E ele continuou escrevendo.

Ela continuou respondendo.

E do dia para noite, eles finalmente conversavam.

Daquele jeito meio esquisito, meio a moda antiga (retrô, não é?).

Como que se trocassem cartas.

Cartas sem destinatário ou remetente, mas que atingiam exatamente quem queriam.

(Eu sei bem o que você está fazendo aí. E sei fazer também).


E trocaram muito.

Gastaram (e melhoraram) suas habilidades.

Fizeram das palavras seus beijos e abraços à distância.

Envolveram-se e doaram-se.

Conheceram-se através de outros.

Personagens imaginários e mirabolantes que nada tinham a ver com eles. Mas não havia forma mais sincera e profunda de conhecer um ao outro que aquela.


Veio um dia o convite.

(Demorou, mas veio).

Não sei bem de quem partiu, tão confusas e intricadas eram aquelas conversas.

(Muito claras, quase banais, porém).

E um dia, encontraram-se, corpo e alma juntos dessa vez. No mesmo lugar em que colocaram os olhos um no outro da primeira vez.

E beijaram-se como deveria ser, afinal, haviam trocado uma meia dúzia de palavras pessoalmente, mas se conheciam como se conhece a um velho amigo (de infância até).

E viveram, como almas gêmeas devem, felizes para sempre.

(Porque assim escreveram no livro de suas vidas).


Bianca Gregorio

Abril/2012

Até a próxima

=D



18.3.12

Um conto febril, criado debaixo das frondosas árvores de Botucatu, em 2010.


O Monstro

O cotidiano me transtorna.

O médico e o monstro, sabe? O cara bonzinho, bem sucedido, admirado, responsável, etc e tal. Do outro lado da mesma moeda, o maldoso, cruel, sem escrúpulo, pavoroso. Meu azar é que não sou médica, logo, só resta em mim o monstro. Às vezes gostaria de ter um arco e flecha, uma bazuca... melhor, uma faquinha de pão. Tem coisa mais cruel que matar alguém com uma faca de pão? Mas logo esse monstro adormece, preguiçoso e entediado. Sim, meu monstro é tão fracassado que até tem preguiça de continuar com esse tipo de pensamento. Bem que o tédio, que na minha cabeça é um daqueles bonequinhos palitos que se desenha no canto do caderno na aula mais chata, usando um chapeuzinho azul, se esforça. Vai lá, bate na porta da oficina do diabo, são super amigos, encomenda um desses pensamentos estranhos e malvados e dá para o meu monstro processar. Daí, o perdedor me passa umas imagens e alguns impulsos violentos. Mas só. Fica só nisso, dia após dia.

E nem o médico me sobrou. Porque se eu o tivesse, mesmo que eu fosse um monstro maluco e endemoniado, as pessoas me respeitariam. Não me achariam uma louca desvairada, estressada, insuportável, mas sim, um clássico. Passariam tranquilamente por cima de minhas neuroses, ignorariam minhas alucinações. É assim mesmo, diriam, coisa de gênio. Mas eu, meu monstro preguiçoso e meu tédio esforçado, todos nós demos um baita de um azar.

Eu devia ter escolhido outra profissão. Sei lá, ter feito Moda, Letras, Engenharia Química ou até mesmo tentando ser médica. Mentira, eu não posso ver um sanguinho que já desmaio. Mas ainda sim, errei. E ninguém pode me culpar de não ter sido esforçada. Levei sempre os estudos a sério, fiz uma boa faculdade e sonhei com um bom emprego. Queria ganhar dinheiro, ser dona da minha própria vida e não das minhas próprias dívidas. Odeio meu trabalho. Paga mal, é longe e as pessoas são um saco. Toda e cada uma delas. Eu me encho de raiva toda hora que olho para uma pilha de papel em cima da minha mesa. Eu estudei que nem uma idiota para isso? Para na hora santificada do café eu ter que ouvir falar das exatas mesmas coisas e se desconfiar, na exata mesma ordem? Meu marido é um ogro, top 10 das reclamações femininas. Minha mulher engordou e meu time tá jogando mal, empatam nas masculinas. Ninguém é feliz com nada; se chove, quer que faça sol; se faz sol, quer que chova. E ninguém tira a bunda da cadeira para largar o marido ogro ou parar de ser fanático por futebol. E eu também não me movo para matá-los ou pular do décimo quinto andar. Somos todos um bando de amargurados se amargurando cada vez mais. O monstro então ronrona no meu peito, vira para o outro lado e dorme. Desejo rapidamente aquela bazuca, mas logo desaparece o impulso. Eu e o tédio com seu chapéu azul suspiramos, decepcionados.

O trânsito me irrita. Meu carro quebrou há quatro semanas, daí tenho que me enfiar, literalmente, num amontoado de gente estranha e sonolenta dentro de um ônibus logo de manhã. Uma hora a menos de sono, uma hora a mais de mau humor. Quando ia de carro, os quarenta minutos de avenidas engarrafadas na ida e na volta também não eram um incentivo. O CD que eu escutava tinha até gasto, de tanto que rolava. Eu queria abrir a janela e gritar ao mundo que todos saíssem do meu caminho naquele instante. Mas não o fazia. Vai que nesse abrir de vidro alguém viesse me assaltar e eu perdesse o dinheiro que não tenho? Talvez eu saísse do carro e matasse o vagabundo, mas daí, iria para prisão fazer um serviço de presidiária, o que aliás, não deve ser muito diferente do meu. Mas estamos tentando melhorar e solta aqui na selva de concreto eu posso pelo menos trocar de roupa.

Minha casa é pequena. A cozinha é ridícula, cabe metade de uma pessoa cozinhando, e felizmente, sou uma pessoa inteira. O banheiro, se não tomar cuidado, molho a sala. A lavanderia é apertadíssima, minha roupa quase nunca seca de verdade, fica cheirando a mofo e tenho que lavar tudo de novo. Meus vizinhos estão entre velhos malucos, casais homicidas e crianças hiperativas. Sem contar o papagaio da vizinha que ama o hino do São Paulo. Minha casa é pequena, muito pequena. Não cabe nada, eu não caibo nela. Mas eu não caibo no meu corpo. Não caibo na minha vida. Eu quero mais que essa caótica, despropositada e chata vida que me deram. Sim, alguém sádico me colocou nesse corpo, nessa casa, nessa vida ridícula. Eu sonhei mais, eu quero mais, eu lutei por mais que isso. Queria me sentir mais livre, mais feliz, mais satisfeita. Odeio a repetição dos dias... parece um filme desgraçado de ficção, onde a pessoa fez alguma merda muito gigante na vida e foi punida. Daí, acorda todos os dias no mesmo dia, até corrigir a maldição do erro. Mas o que eu errei? O despertador, ou alarme do apocalipse como carinhosamente o chamo, me acorda todo dia para o mesmo dia. O tédio nem acorda mais comigo... logo acordo só.

Eu tento ser gentil, despertar o médico e ser uma maluca clássica. Mas não consigo... quando vou ser educada, nobre, logo me prejudico. Parece que nada que faço leva a lugar nenhum. Eu quero uma casa maior, para minha alma, mas ela nunca chega. Só que o lugar já está atulhado. Além do tédio que divide casa comigo, tem esse monstro, que apesar de preguiçoso e fracassado, é grande demais. E sobra tristeza, desespero, descontentamento que formam pilhas até o teto da minha vida. Já disse, minha vida inteira é como calçar um sapato apertado durante 30 anos. Não cabe. Aperta, machuca. Eu me sinto doente, talvez devesse procurar um médico. Parece que cada dia eu incho mais, como em um processo alérgico à minha vida, a inflamação infiltrada na minha alma, a febre convulsionando minha razão. E cada dia mais, minha vida e meu corpo me parecem mais e mais apertados e desconfortáveis. Um dia eu enlouqueço, se já não o fiz. Um dia meu monstro cria vergonha na cara e levanta, transtornado de loucura. E não vai ser um clássico. Pode apostar.


Até a próxima =D

28.2.12

Um dos meus contos atuais favorito. Aliás, queria um dia vê-lo virar um curta rs.


Azuis da cor do céu

O essencial é invisível aos olhos

Eu sou um cara tímido. Quietão, na minha. Lidar com mulheres sempre foi complicado. Não porque são mulheres; mas porque são pessoas primeiramente. Sei lá por que, só sei que sou assim e pronto.

Gosto de ficar na minha olhando as pessoas passarem, viverem, conversando. É um verdadeiro prazer poder estudá-las, seus gestos, seus sorrisos, o caminhar de cada uma delas. Por isso gosto de ficar nessa praça na hora do almoço, depois de comer, sentar, às vezes só olhando, às vezes com um livro debaixo do braço. Tem um parquinho modesto no centro, está sempre cheio de crianças serelepes gritando e correndo para cima e para baixo. Elas me fazem sorrir. E uma mãe ou babá bonita também. Algumas vezes, gosto de me sentir invisível, só olhando, quase que um vampiro, sugando a energia vital daqueles seres amáveis. Um sujeito estranho, eu sei, eu sei...

Foi numa dessas horas, disfarçando que lia, que a vi. Estava quase do outro lado da praça, majestosamente sentada. Sim, majestosa, pois que altivez tinha a postura daquela mulher! Usava óculos escuros e parecia ali, como eu, uma mera expectadora da vida alheia. Tinha um rosto lindo de doer, um nariz fino de princesa, um cabelo longo e ondulado que lhe caia pelos ombros. Vestia-se elegantemente, um casaco negro com botões prateados. Não conseguia me cansar de olhá-la, admirá-la, desejá-la. Meu horário de voltar ao trabalho chegou e tive que deixá-la, ainda que com medo de nunca mais vê-la.

Nos dias seguintes, nas semanas seguintes, vez ou outra lá estava a mulher que eu não me cansava de olhar. A pracinha perdera até a graça, mesmo com suas pequenas árvores bem cuidadas, seus canteiros de mato crescido e flores começando a nascer. O barulho das crianças parecia um suspiro suave que se juntava ao coro de carros na avenida próxima, tão longe e delicado, que eu só escutaria se prestasse atenção. Mas eu não queria prestar atenção no que passava a minha volta mais; meu olhar ficava perdido nela, tão grave, simplesmente fascinante.

Eu queria saber tudo sobre ela. Gostaria de saber seu nome, sua cor favorita e a rua onde morava. Ela tinha medo de altura, gostava de lasanha? Queria saber que gosto tinham aqueles lábios tão perfeitamente desenhados, se ela se arrepiaria quando eu respirasse na sua nuca, se suas mãos eram quentes e macias, como ela dormia ou como saía do banho. E quanto mais eu a observava ao longe, mais eu queria saber, mais eu a queria inteira, só para mim. Será que era casada? Não, não usava uma aliança pelo menos. Mas poderia ser de outro, e o que eu faria então? Que ciúmes eu fiquei um dia, só de pensar em outro homem a abraçando, sentindo o perfume de seus cabelos tão lindos, tão inebriantes... que inveja! Senti até meu rosto corar e fui embora, envergonhado, querendo lhe pedir desculpas pela minha indiscrição.

Dois meses. Dois meses que eu já almoçava e ia praticamente correndo para a pracinha. Dois meses que a conhecia. Ah, conhecia... eu sentia como se a conhecesse há anos, como velhos amigos e ainda futuros amantes. Acho que já tinha decorado cada traço do seu rosto, cada movimento voluntário e involuntário dela. Ela só sorria, que sorriso lindo, ainda que ligeiramente triste, quando alguma criança passava correndo e rindo por ela. Porém, às vezes, lembrava que éramos totais desconhecidos. Sentia-me de fato invisível. Nunca a peguei olhando para mim. Ou se o fazia, era discreta. Eu gostava de acreditar nessa discrição, afinal, era bem típico dela. Aposto que quando eu baixava os olhos para fingir que lia alguma coisa, ela me olhava. Sabia que eu existia? Ah, que prazer seria! Eu sonhava que ela também tinha me decorado, me conhecia e me recitava de cor. E me amava e desejava. Meu Deus, desesperei-me ao me perceber totalmente apaixonado por aquela mulher misteriosa. Apaixonado! Eu nem sabia o nome dela!

Aquilo era cansativo, uma luta, um amor platônico que estava acabando comigo. Eu estava obcecado e tinha vergonha de mim. Tinha vergonha de me olhar no espelho. Até com cara de doente fiquei. Emagreci, enlouqueci, perdi o rumo de casa. E também me odiava por ser incapaz de arrastar meu corpo até lá e falar com ela. Era séria, tudo bem, mas eu podia tentar conversar. Não é isso que as pessoas fazem? Mas eu me achava tão pouco... tão sem graça fisicamente, tão nervoso para conversar com uma mulher, que a voz mal me acompanhava! E se ela fosse dura comigo? E se me achasse um tarado qualquer, que a perseguia há meses! Chamasse a polícia? Nunca mais eu sairia de casa de tamanha vergonha! Ai, tanta coisa que estuda-la se tornou uma coisa boa, mas que doía, pois mexia com tantos sentimentos mal resolvidos dentro de mim...

Cheguei ao meu extremo. E nesse extremo, criei coragem. Passasse mais um dia, não restaria mais alma no meu corpo para contar história. Só umas cinzas de mim. Naquela tarde, com um sol mortiço embaçado por nuvens cinzentas, não me sentei ao meu banco. Fui em direção a ela, que meu Deus, me fez tremer nas bases, tão divina estava. Usava um cachecol verde, tão macio, emoldurando seu rosto. O semblante era duro, olhava para o parque com seus óculos escuros. Quando cheguei ao seu lado, não fez muito da minha presença. Um vento frio que escorregou pela minha espinha, me fez ir em frente e não correr como um covarde.

_ Com licença, posso me sentar aqui?

_ Claro.

Sua voz tinha a mesma dureza da sua expressão, mas era muito agradável. Poderia passar dias e dias a ouvi-la. Nos meus devaneios doentios, imaginei mil vozes, menos aquela. E era melhor, era confortável, era... segura. Como um abraço.

Relaxei.

_Você trabalha por aqui? É que a vejo sempre aqui na pracinha, sentada nesse banco.

_ Sim, bem perto. Estou na minha hora de almoço.

Ela não me olhava. Parecia entretida com algum acontecimento a nossa frente. Mas era educada. E eu não tinha mais medo.

_ Eu também trabalho aqui por perto. Adoro esse lugar para descansar o pensamento.

_ De fato, é um lugar muito agradável.

_ Posso dizer uma coisa?

_ Pode sim.

_ Você é uma mulher muito bonita. Tem um jeito encantador.

Achei que a terra fosse me engolir. Achei também que ela me daria um chute e sairia correndo. Ou simplesmente me ignorasse. Meu coração disparou de tal forma, que achei que ele realmente sairia pela boca.

_ Você acha é?

_ Sim, mas me desculpe, não quero parecer atrevido, nem nada do tipo.

_Pelo contrário, você é um homem muito gentil.

Ela se virou para mim, finalmente.

_ Posso te ver também?

_ Sim...

Fiquei sem entender, desconsertado, até que ela levantou seus óculos escuros e notei, agora os olhando bem de perto, um profundo vazio, um abismo. Ela não me focava.

_ Com licença, sim?

_ Toda...

Ela então me tocou, seus dedos gelados, finos e macios como na minha imaginação. Fechei meus olhos e senti seu toque que era tão delicado, quase carinhoso. Eles percorreram pacientemente meu queixo, minhas bochechas, meu nariz estranho, o contorno dos meus olhos, minha testa, minhas marcas de expressão. Senti que ela não tocava minha pele e a estudava, mas sim a minha alma.

Abri os olhos e a vi sorrindo. Agora sim, agora sim ela era linda. Antes, aquela mulher que me obcecou, sim, era bonita, mas aquele sorriso a transformou e a iluminou.

_ Você também é um homem bonito, não? É uma pena, porém, que eu não possa ver a cor dos seus olhos...

Segurei-lhe amavelmente as mãos. Ela retribui, deixando-as entre os meus dedos.

_ São azuis. Azuis da cor do céu.



....

Do pseudo-livro Vendem-se Histórias de Amor.


Até a próxima.