19.2.08

_ Mas a estação das flores não era a primavera? Todas as estações em um dia só, não soava assim?

O dia em que terminei de escrever esse conto foi muito especial. Luz de velas, muito frio e flores amarelas. Coisas de gente maluca. Mas as personagens agora esperam, por algo muito maior do que realmente parece ser, enquanto observam " todas as estações em um dia só".

Fora de Estação.

Pt.2

Olharam em volta, não faziam a mínima idéia de onde estavam. Riram, deram meia volta e fizeram o caminho contrário, mas evitaram passar muito próximos do amigo de Carlos, que agora ressonava discretamente, a cabeça pendida no peito, as mãos enfiadas no bolso da casaco marrom. Ângela confidenciou a Carlos:

_ Aposto que aquele casaco é presente da tia avó!

_ Deixe a pobre em paz, tá certo?! _ mas Carlos sorriu, revirando os olhos, entretido com as idéias estranhas da amiga. _ Que tal um café? Você paga.

_ Hum, apesar do convite tentador, acho que não, acabei de almoçar. Que tal voltarmos ao carro? Com essa horinha que temos, posso até dar uma boa cochilada.

_ Uau, parece muito emocionante! Mas me conte, não anda dormindo direito?

_ Muito trabalho, preocupações, o estresse de sempre...

Enquanto conversavam a conversa morna e despreocupada de bons e velhos amigos, atravessaram a estação e finalmente sob o sol das duas horas de uma bonita tarde de inverno, alcançaram o carro vermelho estacionado do outro lado de uma grande e florida árvore.

_ O banco de trás é meu! _ adiantou-se Ângela e abrindo a porta.

_ Ok, vá lá, dorminhoca. Posso caçar algo no rádio?

_ À vontade.

Ela deitou-se no banco traseiro, dobrando as pernas, torcendo o corpo tentando arrumar-se em uma posição mais confortável.

_ O carro do meu pai era bem maior e bem mais aconchegante, sabe?

_ Você é que cresceu, garotona...

Não contente, a jovem virou-se umas três vezes no banco, depois de ter tirado seus sapatos de salto alto e finalmente deu-se por vencida, largando-se do jeito que estava. Respirou fundo, verificou o relógio. Uns quarenta minutos ainda, tinha um bom tempo para descansar os olhos do cansaço que tirava um pouco as cores de seu rosto ultimamente. Fechou os olhos, ouvindo sons suaves, como de carros há duas travessas acima e as tentativas nada bem sucedidas de Carlos sintonizar em alguma estação. Só se ouvia estática. O sol que entrava pela janela esquentava seus tornozelos nus. Era um inverno um tanto estranho aquele. No dia anterior saira de casa com uma de suas blusas mais grossas, meias até os joelhos e com o guarda chuva no porta-malas. E agora, aquele sol escaldante, o céu tão azul e sem nuvens... observava, já que abrira os olhos pois a mente simplesmente não desligava apesar de todo cansaço do corpo, a paisagem acima de sua cabeça. Adorava aquelas flores, de onde se lembrava delas? E a árvore estava carregada e ainda abarrotavam a calçada! Mas a estação das flores não era a primavera? Todas as estações em um dia só, não soava assim? Coisas desses tempos malucos... era o apocalipse chegando, diria sua tia avó. Não é que ela mesma tinha uma esquisita tia avó? Riu.

_ Ri de quê?

_ De uma tolice que me lembrei... estou com os tornozelos queimando nesse sol!

_ Meus ombros estão em chamas também... ainda mais nessa parte do carro. Quer saber? Chega pra lá! _ Carlos abriu a porta e saiu do carro se espreguiçando um pouco. Ela se levantou com um pouco de dificuldade e deu espaço para o amigo sentar-se.

_ Uau, aqui tem uma pseudo sombrinha! E você ainda reclama dos seus tornozelos, não imagina como o sol estava lá na frente!

_ E o rádio, preguiçoso? Desistiu de sua missão?

_ É... simplesmente não sintoniza. Está de mau humor assim como esse tempo. Meio...

_ Fora de estação.

_ É... bem por aí. _ Carlos despiu a jaqueta preta que usava. _ Talvez agora eu esfrie um pouco.

_ Como você é esperto! Com esse casaco super grosso debaixo do sol... depois não quer sentir calor?

_ É que não gosto muito dessa camisa que estou por baixo. Deixa-me velho.

_ Você é velho, Carlos. Aliás, nós somos.

_ Nem tanto... _ virou o pescoço e analisou, coçando o queixo com um sorriso perverso. _ Mas bem que você está acabadinha!

Ângela acertou-lhe um tapa no braço e virou-se para observar a rua. Prendeu-se à árvore. Aquelas flores, tão lindas, caindo serenas, uma após a outra, no asfalto. Uma tarde fora de estação, mas tão bela... desejou que houvesse algo para ouvir no rádio, uma canção... mas qual? O silêncio era agradável, sempre o fora entre aqueles dois, mas havia uma qualquer coisa que a perturbava naquela tarde. Estava inquieta, era isso. Mexeu-se no banco, olhou para o relógio, ainda meia hora!, e finalmente pousou o olhar em Carlos, que também prestava atenção em algo fora do carro. Tinha um semblante pensativo e sem que ela notasse, igual ao dela.

_ Quanto tempo?

_Hein?

_Há quanto tempo ele está fora?

_ Ah, umas duas semanas, se não me engano...


Continua...


Ao som de ... Muse - Super Massive Black Hole

1.2.08

_ "E há horário para tudo, comer, beber, dormir, trabalhar, dançar, cantar, amar, e até mesmo para sonhar! "

Uma história bem fofinha. Porque sonhar faz bem às vezes.

Fora de Estação

Pt. 1


_Temos dois minutos.
Seus olhos fixos no relógio digital. Os segundos iam passando, ansiosos ou apreensivos? Só sabia que corriam, rápidos como os tempos modernos. E ela era uma filha orgulhosa dessa época, a vida e os sonhos acorrentados ao relógio e os olhos em busca dos números multicoloridos, tão atrativos, piscando para nos lembrar que a vida é cada vez mais curta, que envelhecemos cada vez mais e que simplesmente não temos controle sobre a situação. E como escapar se aqueles malignos estavam em todos os lugares? Nas paredes, nos computadores, nos passos apressados, nas cabeceiras e debaixo dos travesseiros, nos bolsos, na televisão, na voz incansável do locutor dos rádios, nos pulsos, nas praças, em vitrines e até nos sinos das igrejas. E há horário para tudo, comer, beber, dormir, trabalhar, dançar, cantar, amar, e até mesmo para sonhar! Só não sabemos a hora em que morreremos e estamos sempre esperando por ela, fingindo que podemos adiá-la...
_ Dez segundos, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois... um! Vamos?
Saíram do carro, e calmante atravessaram a rua que os levava até a estação de trem. Estava agitadíssima, pessoas enchiam de vida e movimento a grande e charmosa construção de tijolos vermelhos, tão antiga quanto aquela cidade. Pessoas andavam muito apressadas, algumas até corriam, cheias de todo o tipo de malas e mochilas. Diversas eram também aqueles que as carregavam, seus rostos tão ricos em expressões, algumas aflitas, um pouco de cansaço emoldurando os olhos de uns e uma alegria esperta nos olhos de outros. Uma distraída e tipicamente perdida jovem de cabelos muito curtos trombou com Ângela, que não pode fazer outra coisa a não ser rir da garota com um mapa prestes a cair do bolso do casaco desbotado que um dia fora... azul? Mas eles andavam tranqüilos, estavam no horário e era até bom observar toda aquela gente passando depressa por seus olhos. Quando mais jovem, ela podia perder uns minutos sentada apenas tentando adivinhar o destino de cada uma daquelas pessoas, até mesmo suas vidas. Algumas simplesmente passavam despercebidas com seus rostos impessoais, outras chegaram até mesmo a tirar seu sono.
Procuraram a plataforma onde ele deveria chegar e com a ajuda de um guarda gordo e de cabelo muito grisalho que escapava por baixo do boné, acharam sem maiores dificuldades. Porém, não havia trem algum por lá, apenas algumas pessoas com semblantes aborrecidos. Carlos aproximou-se de um senhor.
_ Que há, amigo? O trem não deveria ter chegado?
_ Pois é, veja que atrasou! Estou esperando pela minha insuportável tia avó há um tempinho já e agora mais essa! O trem teve um problema, não me pergunte qual, por lá mesmo e vai demorar no mínimo uma hora! Não é um absurdo? Como se eu não tivesse mais nada para fazer da vida...
Virando as costas para os dois homens discretamente, Ângela riu baixinho enquanto fingia observar os trilhos vazios. Carlos sorriu para o homem que foi sentar-se em um dos bancos e o deixou, apromixando-se de Ângela, tocando seu braço de leve. Ela sem perguntar nada, começou a andar sem direção sendo seguida por Carlos, apenas esperando uma distância segura.
_ Que amigo mal humorado você foi arranjar, hein?_ Ângela ria agora mais abertamente, mais ainda checando por cima do ombro do amigo se o homem não os observava, contudo ele parecia muito mais interessado em uma jovem de vestido vermelho que passava pela plataforma. _ Tia avó?!
_ Ah, nem me fale! Tive medo de o homem começar a contar histórias sobre a velha! E sabe do pior?
_ Não?
_ Tenho certeza que alguém aqui, muito esperta, _ puxou-a pelo braço e o beliscou de leve _ deixaria esse pobre mortal lá, ouvindo como a maldosa tia avó do meu novo amigo nunca fazia biscoitos para ele!
_ Eu? Nunca! Sabe muito bem que é de minha natureza acompanhar meus amigos, mesmo aqueles que me beliscam _ ela agora revidada com um doído beliscão em seu abdome _ em todos os
_ Ei, sabia que isso doeu?
_ Ótimo. Era a intenção. Mas... para onde estamos indo, afinal?



Continua......


Ao som de ... Queen - Who Wants to Live Forever



17.12.07

_ ... será que aquelas folhinhas nunca sentiram vontade de assistir ao espetáculo do inverno?


pensou olhar para trás e perceber que existem verões em sol e relacionamentos sem amor?

Vestígios de um verão sem sol.

Levantou-se da cama e foi abrir a janela. A luz intensa do sol do meio dia feriu seus sensíveis olhos claros, porém o ar fresco de um outono recém chegado lhe fez muito bem. O verão finalmente tinha chegado ao fim.

_ Essa é a hora que as folhas caem e músicas como essa não têm mais nenhum significado, não é?

Falava para si mesma, dando as costas agora para a janela e observando as paredes cor de palha da casa vazia. Ao fundo, o rádio tocava aquele CD. Ela suspirou longamente, onde estaria a caixa onde ele veio embrulhado? Provavelmente esquecida no fundo daqueles armários com cheiro de mofo. Estavam fechados desde o último verão que passaram ali. Esticou os braços para as portas, mas não sentiu verdadeira vontade de abri-las.

_ Deixa os mortos repousarem em suas silenciosas tumbas, Érica.

Voltou seus olhos entristecidos para o mundo do outro lado da janela. As árvores continuavam as mesmas e as folhas balançavam ao sabor da brisa fresca. Vez ou outra uma delas caia, aliviada, no chão de terra batida, e se juntava às outras companheiras de missão cumprida. Tinham feito a primavera e o verão e agora era hora de repousar e voltar de onde vieram. Pensava agora, as mãos apoiadas no parapeito da janela, será que aquelas folhinhas nunca sentiram vontade de assistir ao espetáculo do inverno? Talvez elas fossem espertas o suficiente para saber que todos têm sua hora de cair.

_ E será que é tão ruim assim?

O CD finalmente chegou ao fim. Ficou o silêncio pesado passeando pelos corredores, Érica quase podia senti-lo chegar mais perto. Não o queria. Se demorasse muito, logo conseguiria ouvir as confissões daquelas paredes e muito provavelmente seus pedidos.

_ Por que o deixei pintá-las dessa cor tão pavorosa?

Fechou os olhos e largou-se na cama. Ficou o mais quieta possível, imóvel. Mas não ouviu nada, sequer um sussurro entristecido. Abriu lentamente os olhos, tocou os lençóis com suas mãos suaves, as unhas recém feitas. Não, nem as paredes nem aquela cama queriam falar-lhe. Assim como as músicas naquele CD. Ou seu coração.

Então, tornou a fechar os olhos. Estava confusa, entristecida, aliviada, até uma vontade de rir lhe atormentava. Simplesmente não entendia o que estava acontecendo, não era pra ser assim.

_ Era para ser triste, Érica! Era para você estar com os olhos cheios de lágrimas, o coração pesado, a mente cheia de lembranças! _ Levantou o corpo e apontou para o armário, no seu monólogo entusiasmado, continuou _ Olha bem aquele armário! Está cheio das roupas dele, do perfume dele, a camisa que ganhou da madrinha, aquela que ele odiava e usava para cuidar do jardim, enquanto você, sua insensível, morria de rir dele, enquanto lia numa cadeira confortável! _ Sua respiração ia se alterando, as palavras cada vez mais rápidas saltavam de sua boca _ E essa cama! _ Suas unhas cravaram-se no lençol muito macio e seus olhos deslizando também por ele _ O que essa cama guarda! Tantas aventuras e prazeres, quantas palavras trocadas, até outro dia jogávamos baralho, você ganhou e ele, sem saída, apagou as luzes e te enlouqueceu! Érica, você... eu... _ Parou, os olhos lá fora, acompanhando uma folha que caia e lembrando que estava tão sozinha ali e discursava apaixonadamente tão somente para si _ Eu não sinto falta dessas coisas. De nenhuma delas.

Olhou em volta, tocou o travesseiro de fronha verde folha e o trouxe para perto. Queria abraçá-lo, mas seus braços não obedeceram. Uma carta de baralho caiu quando ela o devolveu ao lugar onde estava.

_ Ele roubou só pra eu ganhar. Para me ganhar.

Levantou-se da cama, foi até o rádio e colocou para tocar o CD de novo. Caminhando até o banheiro, cantou junto com a cantora que chorava um amor perdido. Sabia a letra de cor, mas aquelas palavras... que diziam? Não sentia falta dele as cantando para ela, entre uma partida de xadrez e outra. Aliás, ela ouviria aquela canção que agora soava até monótona, jogaria xadrez, apostaria uma noite de amor em um jogo de cartas e plantaria rosas que nunca nasciam, com qualquer outro homem e nada disso lhe apertaria o coração. No banheiro, encarou o espelho.

_ Vazio. É isso que estou sentindo.

É o que foi. Foi toda uma relação vazia. Agora entendia. Aquele silêncio desconfortante que os interrogava às vezes não era cansaço e estresse de um dia de trabalho duro. E aquela indisposição de sair de casa às vezes para um cinema não era simplesmente TPM.

_ Mas foram anos...

De conforto. De um amigo para acompanhá-la nas horas de solidão, de um amante para satisfazer seus desejos, até um ombro para chorar as insatisfações de um dia extremamente atarefado. Abrira mão do amor e de um coração batendo alucinadamente pelo conforto de um fim de semana agradável assistindo TV ou de um verão calmo naquela casa.

_ Verões sem sol.

Passou as mãos pelo rosto, cobrindo seus olhos. Como se sentia cansada! Dormira até tarde aquele dia, mas o cansaço era tanto!

_ Dormi todos esses anos... como fui tola! E...

Olhou-se atentamente, no fundo dos olhos. Vazios. Não eram como os dele.

_ Cruel.

Apagou as luzes do banheiro e saiu. Ele a amara tanto, dedicara-se tanto! E ela sequer conseguia sentir saudades deles juntos, nenhuma mágoa do fim! Suspirou, alguém sempre tem que sofrer, disseram-lhe uma vez.

_ E que não seja eu.

Recolheu a caixa com seus últimos pertences e decidiu deixar a janela aberta. Um pouco de ar fresco na casa daquele homem não faria nenhum mal. Lá fora, uma folhinha despencava do alto de um galho. Missão cumprida, o fim.


Próximo conto ... Fora de Estação.

Até

Ao som de: Morrissey - All the Lazy Dikes.



13.11.07

_ ... Eu a amava, mesmo quando a odiava um pouco.


Esse conto foi escrito para alguém muito especial.



Ebola.

Coloquei a chave na fechadura, a mala pousada ao meu lado. Estranhei ainda não ter ouvido sua voz atrás da porta. Ela sempre me esperava. Estava com saudade, sentindo até um aperto no coração. Queria vê-la, saber se está bem, como foi que passou a semana sem mim. Apostava que estaria morta de saudade também, ficaria muito feliz com minha volta. Talvez estivesse dormindo tranquilamente, por isso ainda não a ouvia. Abri a porta, escorreguei a mão até o interruptor. O apartamento vazio.

_ Reclamações! Sempre reclamações! Vê?
_ Ainda essa ironia! Olhe bem essa frase...
Olhei-a nos olhos, querendo censurá-la. Só me trazia problemas! Mas sequer senti vontade de gritar-lhe alguma coisa, descontar todo meu estresse nela. Era incapaz de responder-me, mas tinha certeza que se pudesse, diria:
_ Desculpa.

Trouxe a mala para dentro e fechei a porta. Cadê você, sem educação, não vem me dar oi? Andei um pouco, fiz um barulho para chamar atenção, mas nada. Simplesmente não estava. Olhei para o relógio na parede e depois pela janela. Que horário para sair, garota! E nesse frio... preocupei-me e mais uma vez senti aquele aperto no coração. Ela não estava lá para me receber. Mas bem que eu merecia aquilo, não é verdade?

_ Uma semana inteira?
_ É, tem que ser assim, não há outra forma. Já pensei em tudo...
Ela voltava naquele momento, chamando nossa atenção. Parecia feliz, aquele brilho nos olhos. Liberdade, ela gostava. Mas gostava da casa e de mim. Sempre senti um amor sincero vindo dela. Cada vez que me chamava com sua voz infantil, eu sentia. E sem querer, eu a amava intensamente, mesmo repreendendo-a todos os dias, às vezes nem ligando que ela estava lá. Mas eu a amava, mesmo quando a odiava um pouco. Seu jeito sereno e meigo por tantas vezes ou aqueles acessos de energia que eu simplesmente não podia entender e me irritavam. Era seu jeito, de sua forma tão peculiar e era encantador.

Deve voltar mais tarde, não vai ficar a essa hora passeando. Em breve estará aqui, vai ficar tão feliz em me ver de voltar, pensei. Abri o quarto, desfiz minha mala rapidamente. Tomei um banho demorado, a viagem tinha me deixado tão cansada! Bebi um chá, ainda com a toalha enrolada na cabeça, assistindo uma coisa qualquer na televisão, sem prestar nenhuma atenção. Meu pensamento estava nela, a preocupação começando a aparecer. Não podia pelo menos avisar? Ri-me, que tola! Olha como estava agindo... Voltará de madrugada, apostei. Chegaria muito silenciosa, comeria algo e deitaria na sua cama. Na manhã seguinte me acordaria e mataríamos a saudade. Provavelmente eu até brigaria um pouquinho com ela. O chá estava acabando. Olhei o fundo da xícara, senti pesar o coração. Afastei aquele pensamento, tomando o último gole e levantei-me para dormir. Mas antes, deixei um pouco de comida. Ela sempre tinha fome de madrugada. Aquela passeadora.

_ Fique quieta, está bem? Está me irritando!
_ Deixa ela...
_ Ah, não! Chega disso! Vá dar uma volta, sua chata!
Levantei-me da cadeira e abri a porta. Saiu rapidamente, mas ainda voltou para olhar-me. Porém, fechei a porta antes que pudesse voltar.
_ Esperta ela, sabe a hora de deixar você sozinha!
_ Um arzinho para pensar no modo como anda se comportando!
Rimos, mas logo o clima tornou-se pesado. Algo muito triste estava para ser dito.
_ E... afinal... o que fará com ela?
_ Você sabe... eu... não tenho outra alternativa. Tenho que deixá-la. Será melhor para nós, principalmente para ela. Um novo lar, vai ser melhor... com certeza será melhor...
_ Não sentirá saudades?
_ E como, você não sabe o quanto gosto dessa pequena... você não imagina...

E não sabia eu mesma até aquela manhã. Quando acordei com o despertador gritando em minha orelha, estranhei. Levantei-me da cama, ainda sonolenta, enrolei-me no roupão, calcei meus chinelos e fui checar a sala. Nada. Aquele vazio, aquele silêncio... tristeza. Cadê você, sua maluca? Passou a noite fora, hein? A farra deve ter sido boa! Entristecida e um pouco chateada, fui para o banho, esquentei os ossos naquela manhã gelada. E antes de deixar a casa para ir para o trabalho, olhei para trás me perguntando se enfim, ela sabia de tudo. Era muitíssimo esperta aquela lá, muito mesmo...
Mas o silêncio e o vazio acompanharam-me durante uma semana e depois nas outras sem fim. Todos os dias eu esperava abrir a porta e dar de cara com ela, aqueles olhos brilhantes, aquela alegria tão presente no seu jeito e carinho que estava sempre pronta para dar. Meu coração murchava toda vez que aquela porta se abria, só o vento me cumprimentando pela manhã. E então, logo ela soube, não era mesmo esperta? Soube do que aconteceria, que ninguém queria contar-lhe, mas mesmo assim soube. E foi embora. Soube que teríamos que nos separar, sua querida companheira não poderia mais compartilhar sua casa e sua cama com ela e, esperta, como sempre, se foi. E poupou-me. Poupou-me da dor da despedida, aquele olhar de quem sabe que nunca mais poderá dar outro olhar, aquele abraço triste de quem sabe que nunca mais poderá dar outro abraço. E foi embora, qualquer outro lugar, assim nenhuma de nós sofreria, o adeus não teria que acontecer. Tão pequena, mas tão esperta.
Esperta como o que era.
Uma gata.
Para minha pequena gata, perdida no tempo.

Próximo conto... ainda não escolhido.

Aguarde.
Até
Ao som de... teclado.

19.8.07


_ ... sorri o meu sorriso mais triste ...


E continua Clara, ouvindo... na sua fortaleza...


A página arrancada.
Pt. Final.


_ Mas que bom ouvir isso, Alberto. Não sabe o quanto me alegra! _ Não fazia a mínima idéia. Mesmo. _ Conhece a sortuda há muito tempo? _ A minha sorte, eu pensei. Toda a sorte que eu sempre quis.
_ Não muito, mas parece fazer uma eternidade! E que doce eternidade! Uns três meses, vou pedi-la em namoro no sábado. Está tudo preparado, muito romântico! Tenho certeza que ela é a mulher com quem vou me casar.
_ Quanta paixão! _ Minha risada amargurada, amargor que só eu senti escorrer pela garganta. Matava-me aos poucos, intoxicando-me daqueles sentimentos. Nem sabia mais o que sentia, só sabia que precisava continuar feliz, aparentemente, pois sabia que nunca mais o seria, se um dia o fui. _ É ótimo vê-lo tão feliz... espero que dê tudo certo!
_ Vai dar, Clarinha, vai dar... _ Olhou o relógio. Tive curiosidade de saber as horas também. Era a hora da minha morte. Depois daquilo eu respirei e só. _ O tempo voa com você! Mas tenho que ir, já é tarde!
_ Ah, tão cedo? Sabe que não me atrapalha, eu durmo tarde! _ Mentira, mais uma das minhas. Ele nunca saberia. Até eu esqueceria da verdade para doer menos.
_ Preciso mesmo ir! Mas muito obrigada por tudo, pelo jantar...
_ Que é isso, você sabe que eu estou sempre aqui! _ sorri o meu sorriso mais triste. Não me lembro de ter me sentido tão desesperançada em toda minha existência medíocre. E para encerrar a noite com chave de ouro... _ Não deixe de me ligar, avisando as novidades com sua princesa encantada!
_ Pode deixar! _ Abraçou-me forte. E eu o abracei... e fiquei abraçada com ele. Nunca tinha feito aquilo. Foi aquele momento que me anestesiou. Não existe dor em um mundo que exista aquele sentimento. Não pode haver dor.
_ Você está bem mesmo, Clara? Estou achando-a meio abatida hoje.
_ Estou ótima, Alberto. Até logo.
Eu sei que ele viu, porque por um breve instante seu sorriso se apagou. Ele viu a lágrima, a primeira e última lágrima que ele verá dos meus olhos apagados. Fechei a porta. Limpei a mesa, a lágrima morna grudada no meu rosto, cravada no meu coração. Lavei os copos, sequei - os bem. Nada mais importa. Cansei disso. Não me sinto melhor depois de ter por tanto tempo o peso da caneta revirando minhas entranhas. Quero meu tédio de volta. Meu tédio devoto. Não quero pensar em conhecê-la. Odeio-a, invejo-a, queria estar em seu lugar. Talvez não em seu lugar. Em qualquer outro lugar...
Clara fechou o diário. Nenhuma lágrima no rosto. Olhou pela janela, era noite sem luar. E ela, mulher sem coração. Suspirou, sentindo aquela dor que ela não estava acostumada. Queria tudo de volta. Podia esquecer tudo, não podia? Apagar aquela noite terrível, fingir que nada tinha acontecido. Ela era forte para fazer isso, tão forte... uma fortaleza. Abriu o diário, calma como sempre, nada podia tirar Clarinha do sério, ele dissera uma vez. Arrancou as páginas escritas, uma a uma, rasgou-as com serenidade. Nada aconteceu, só um pesadelo que a luz do dia vai apagar. Abriu a janela e os pedacinhos de seu coração voaram pela noite escura. Quem disse que aquela velha tola não podia se iludir?





Espero que agrade. Quem nunca sentiu a dor de uma página arrancada???



Próximo conto:


Ebola



4.6.07

_ ... e aquele vinho não podia ser qualquer outra coisa a não ser sangue.


A dor silenciosa que consome. Até quando ela conseguirá manter-se firme no alto de sua torre de isolamento??


A página arrancada.
Pt.3

O garfo teria caído de minha mão. Mas eu sou forte. Sou franzina e um tanto pálida, mas sou forte. Uma fortaleza. Olhei-o com surpresa, forcei um sorriso que saiu muito autêntico, ele pareceu acreditar pelo menos. E ele era transparente como meus copos bem cuidados. Mentir? Ele não sabia mentir. Esconder? Não, ele nunca aprendeu isso. Mas eu sou ótima nessas coisas. Terminei de mastigar, engoli cacos de vidros como se fossem pétalas de rosas. Qualquer menininha tola se empolgaria, iludida, e acharia que ela era a tal mulher. Mas eu sou uma velha tola. Velhas tolas não se iludem dessa forma. Não essa velha tola, pelo menos.
_ Jura? Quem é? Conheço?_ Perguntei aquilo esperando que eu a conhecesse. Matá-la-ia, sem remorso nenhum. Falo sério.
_ Não, mas vai conhecê-la, com certeza! Ah, Clara, você tem que conhecê-la! Vai me dar razão, por ser o homem mais apaixonado do mundo!
Ele deu uma risada que simplesmente cortou meu coração. Abandonei calmamente o garfo ao lado do prato, peguei o copo. Suava frio e aquele vinho não podia ser qualquer outra coisa a não ser sangue. Meu sangue. Tentava sorrir, usei de todas as minhas forças, eu sou um estoque infinito de forças... o infinito teve um fim. O sorriso não saiu. Eu encarava a mesa à minha frente, eu era uma estátua de gelo com um coração de fogo. Derretia.
_ Clara, que houve? Sente-se mal?
_ Se eu me sinto mal? _ Voltei a mim, com um sorriso amável colado nos lábios. Não estava acontecendo nada demais... ele não quis dizer aquilo... _ De forma alguma, desculpe-me, acho que me distraí por um instante! Claro, quero muito conhecê-la! _ E esganá-la. Acabar com ela. Não sou uma pessoa violenta, mas naquele segundo, e até mesmo agora, sinto-me descontrolada de raiva da desconhecida. Minha moderação pararia no inferno se a olhasse. Pior que sei que esse dia vai chegar. Não quero nem imaginá-lo, basta de dor por um dia.
_ Ela é linda... mais linda do que eu posso descrever! Não sou bom com essas coisas! Você que é! _ Ele parou para bebericar seu vinho. Por um segundo, o único segundo em minha vida inteira, desejei mal a ele. Jamais tinha me pego pensando daquela forma. Escondi a admiração novamente por detrás daquele sorriso nojento que preguei com pregos enferrujados em meus lábios, querendo que daquela boca nunca mais saísse palavra nenhuma. Sua voz se calasse para sempre e que ela o odiasse eternamente. Estava tomada por ódio, fúria, tremia de leve até. Experimentei muitas coisas ruins dentro do meu coração, todo tipo de ciúme, inveja, decepção, mas aquilo não. Era potente, maior do que meu controle. Eu era uma fortaleza prestes a desabar e virar pó. Podia me vislumbrar levantando violentamente da cadeira, levantando o tom de voz, coisa que raramente faço, lágrimas irrompendo de meus olhos cansados de tanta contemplação e nenhum carinho em retorno, eu nunca choro na frente de ninguém. Eu correria para ele em estado deplorável de desespero e me jogaria em seus braços. Gritaria o mais alto que eu pudesse que tudo que eu tenho de mais importante na minha ínfima vida é ele! Que ele esquecesse essa mulherzinha à toa, linda, perfeita e ficasse comigo, eu imploraria de joelhos por isso! Não! Não se apaixone perdidamente por uma mulher que não seja eu! Não ligo que você continue com seus romancezinhos baratos com vagabundazinhas quaisquer, eu não ligo, o ciúme já me é conhecido, amigo de solidão e noites vazias!
_ Tem uma música, sabe, acho que você não conhece, que diz algo como “Você é a única luz que eu vejo”. Uau, sabe, Clara, eu me sinto muito assim! Só tenho olhos para ela! _ Não gosto de canções de amor. Não consigo deixar que estranhos tentem dizer o que eu sinto. Eles simplesmente não sabem como. _ Acho que estou parecendo um adolescente apaixonado! Mas falo sério, sabe, você me conhece como ninguém. _ Que teria eu feito para merecer tal castigo? Tenho sido boa a vida inteira! Tenho vivido quieta, esperando por dias melhores, só amando em silêncio e agora aquilo? Queria gritar, mas não existia voz que pudesse me auxiliar. _ Não sou desses que caem de amores pela primeira mulher que aparece! Demorou, mas ela chegou! O amor que sempre esperei!




Ao som de ... Thom Yorke - Harrowdown Hill

3.5.07

_ ... nunca deixei transpareceu minha tempestade, era sempre calmaria perto dele.



A dedicada Clara alegra-se em receber o amor de sua vida em uma hora tão inesperada. Mas sabia ela o que a noite de macarrão e filés de frango poderia reservar para seu coração...


A página arrancada
Pt.2




_ Mas que bom tê-lo por aqui, Alberto! Não imaginava vê-lo!
_ Como não? Esqueceu?_ Ele deu risada, dando-me um tapinha no ombro.
Lógico que eu tinha esquecido. Olhei para trás, em cima da escrivaninha, a sacola esperando por ele. Minha memória tinha falhado. Ela nunca falhava, ainda mais em se tratando de Alberto. Eu ri. Impossível não rir com ele. Convidei-o para entrar e jantar comigo. Educado, como se não fossemos amigos de anos e anos, perguntou se não ia atrapalhar. Mostrei a sacola, fui abrir uma garrafa de vinho e esquentar mais um pouco o jantar. É incrível como eu me sinto bem perto dele... ainda mais daquele jeito. Estava radiante.
_ Ficou muito bom, hein?
_ Também achei!
Fui colocando os pratos e os copos enquanto conversavámos. É lógico que estava ótimo. Nada que eu fizesse para ele seria ruim, tinha que ser perfeito. Minha mesa para uma pessoa tinha duas naquele momento e eu estava sorrindo à toa. Servi o vinho e em seguida minha voz me condenou.
_ Novidades?
Ai, como fui tola! Que pergunta, que pergunta! Que eu tinha que querer saber mais do que ele me contava? Podíamos continuar com nosso jantar, calmamente comeríamos o macarrão e os filés de frango, eles nunca tiveram gosto tão acre! Talvez conversássemos sobre o trabalho, amigos antigos que nunca víamos, até sobre o tempo, que não pára de chover nessa cidade! Ele iria embora com sua sacola, eu não pediria mais nada, sequer um beijo, sequer um abraço, sequer uma palavra de carinho a mais do que dois amigos possam ter! Nunca pedi por isso, nunca esperei por isso, não esperaria aquela noite. Eu fecharia a porta, meu coração disparado, enlouquecida de felicidade. Eu dormiria feliz e não estaria escrevendo essas malditas páginas, perdendo horas de sono que seriam maravilhosas! Não ocorreu nenhum crime, ninguém morreu ou está doente... minto, lógico que está! Não posso negar, estou com a alma adoecida, estremecida por um desastre que não mata ninguém, que ninguém morre de amor! E a única maneira de atenuar os sintomas dessa enfermidade é escrevendo nessas páginas idiotas de diário, surdas e mudas... e é disso que eu preciso. Contar para alguém o que eu não quero que ninguém saiba, desabafar sem ter medo de morrer de vergonha que o mundo saiba que eu dediquei minha vida à um amor como o que eu nutro por Alberto!
_ Novidades?
_ Ah, Clarinha, não tive oportunidade de contar para ninguém, me alegra muito ser você a primeira a saber!
_Que acontece de tão bom? Já soube de algo assim que abri a porta... foi promovido?
_ Ah, muito melhor que isso! _ Deu um generoso gole na taça cheia de vinho. Satisfeito, o desgraçado estava satisfeito como nunca!
_ Ganhou na loteria então!
_ Pode-se dizer que sim! Ganhei o melhor prêmio na loteria!
Meu Deus, como pode? Um homem mais cego que Alberto? Mais distraído que ele? Com certeza é o homem mais desligado do planeta! Ou eu seria a mulher mais fechada do universo? Talvez sejamos isso mesmo, um desligado e uma fechada. Um túmulo. E é bem verdade, nunca deixei transpareceu minha tempestade, era sempre calmaria perto dele. Meu peito podia explodir de contentamento, eu mantive sempre o mesmo sorriso moderado. Podia morrer de ciúmes de uma namoradinha, porque com ele era sempre umazinha de nada, mas cumprimentava-a com a amabilidade costumeira. Adoecia de saudades, mas sempre ligava em um intervalo regular. Minha vida inteira foi moderação, discrição. A única coisa desmedida e selvagem dentro de mim é minha paixão. Burra, cega e loucamente dedicada. Enquanto ele corria o mundo espalhando suas graças e beijos, eu me reservava a observá-lo e sonhar com ele. Não tive mais nenhum homem desde que Alberto entrou em minha vida. E ele entrou cedo, cedo demais para eu raciocinar com clareza e ver que talvez, tenha errado e desperdiçado minha vida.
_ E que prêmio é esse? Olha só como sorri!
_ Seu macarrão está maravilhoso como sempre! Bem, Clarinha, tenho a felicidade de informar que encontrei a mulher da minha vida!

.... Continua ...

Ao som de ... Radiohead - Thinking About You

4.2.07

_ Repentino.


Meus contos andam vindo aos poucos... a idéia chega, um pedaço da história se revela na esquina, depois do jantar, durante uma aula... Esse não. Chegou forte, clamando por ser escrito. Entregou-se por inteiro para mim e eu o aceitei com todo coração.


_ Eu não posso fugir de mim mesma. Ninguém pode.


A página arrancada.
Pt.1

23 de Setembro de 2001.


Estou há cinco minutos olhando para a página em branco. Tenho medo dela. Quase chego a esquecer que é só um pedaço de papel e o temor que sinto é de mim mesma. Das coisas que escreverei nela, das confissões que estou me obrigando a fazer. Acreditar é difícil, machuca. Faz apenas algumas horas que tudo se passou, mas agora quase não sinto a dor. É como estar insensível a uma ferida aberta no meio do peito. Porém, apesar de anestesiada... está aqui. Eu não posso fugir de mim mesma. Ninguém pode.
Meu dia foi normal. Nada de novo. Nada mudou. O trabalho é rotineiro, já sei fazê-lo de olhos fechados. O cobrador do ônibus e o motorista continuam os mesmos. A meia dúzia de pessoas que sempre o pegam estava lá. A blusa de quinta feira da mulher de olheiras fundas e costas curvadas também estava presente. Não sei o motivo, morro de uma curiosidade intrometida de saber por que ela sempre veste aquela blusa listrada às quintas feiras. Não é um uniforme, já a vi com um cinzento. Talvez ela nem tenha percebido. E definitivamente não é da minha conta. O mercado continua lá, o açougueiro sempre reclamando da artrite, a senhora gorducha que pesa os legumes sempre elogia as abobrinhas que eu escolho. O cachorro da vizinha late todos os dias para o marido, mas nunca para o amante. Será que ela o treinou? Eu também não mudei por fora. Meus cabelos conservam-se do mesmo castanho perene, nunca os tingi. Mas mudei por dentro. Não queria ter mudado, nunca. Queria estar sempre no mercado escolhendo minhas abobrinhas, ouvir o latido do cachorro da vizinha, tudo podia continuar do mesmo jeito e eu seria feliz, também do meu jeito. Queria a mesmice de todos os dias se repetindo, repetindo... nunca ficaria cansada. Queria sentir sempre as mesmas coisas boas e terríveis, já aprendi a conviver com elas. Mas não sei conviver com isso, não quero aprender. Queria nunca ter sido perturbada às oito horas dessa noite.
Estava na cozinha, terminando de cozinhar meu jantar. Seria uma noite como todas as outras, solitária, mas agradável. O interfone tocou. Não esperava visitas, elas são raras. A voz áspera do porteiro anunciou:
_Seu Alberto, pode subir, dona?
_Pode sim.
Corri para o banheiro, passar uma escova nos cabelos. Senti meu coração bater mais forte e ai, como sou tola, pensei que era uma surpresa muito agradável! Explodi, a minha maneira, de felicidade, que queria Alberto a aquele horário? Não importava, sua visita era sempre uma alegria a mais para meus dias monótonos. Não que eu reclame da monotonia, hoje eu posso dizer que a adoro. A campainha tocou, eu já grudada à porta. Abri e nunca o achei tão mudado. Seu semblante estava iluminado, sorria muito, mexia-se animado. Abraçou-me forte, como sempre fazia. Eu simplesmente o achei mais lindo do que nunca. Que acontecia com Alberto?


Continua....


Ao som de Depeche Mode - Somebody

20.1.07

_ Visual novo.


Lindo né? Tive preguiça de fazer um eu mesma, logo, baixei esse que está excelente. Estava precisando mudar mesmo....


_ "Assim como minha vida."


Bem, essa é uma redação que eu fiz para o cursinho ano passado, mas gostei muito do resultado e quem corrigiu também! Espero que gostem também, meus caros leitores fantasmas.


As últimas horas.
Ele estava sentado em sua confortável poltrona, envolto em uma nuvem espessa de fumaça, refletindo e observando a chama consumir o cigarro que, ironicamente, também o consumia. A música que colocara para tocar era triste e mais parecia um coral de anjos, prontos para levá-lo dali.
Apagou o cigarro, suspirando, muito cansado. A fumaça foi se dissipando e pôde ver melhor a sala. “Assim como minha vida”, pensou. Entendia agora as palavras do avô, ouvira-as um pouco antes do fim da existência daquele velhinho de cabelos muito brancos que dissera quase que num sussurro, o sussurro mais lúcidos de seus últimos tempos, que agora, no fim, ele podia ver claramente. “Sim, vovô, eu também posso ver agora’. Na juventude, viu a vida como os feixes de luz que escapam das frestas das cortinas entreabertas, mas, agora que a idade tornara seus cabelos tão brancos quanto os do avô, ele podia ver tudo, sem cortina que pudesse impedir a luz de chegar aos seus olhos. E se sentia só. Seus dois filhos não corriam mais pela casa, muito menos o terceiro, pois tinha ele mesmo trancado a porta daquela criança. A ordem final que tinha enchido de água os olhos da mãe, que não se lembrava nem do nome, só da foto no jornal, caderno policial.
Levantou-se e encarou o espelho. Não precisava de uma pesada biografia para contar sua história, pois ela estava todinha ali, no seu rosto. Lembrou-se do livro que lera no colégio, O Retrato de Dorian Gray. Infelizmente ele não tinha nenhum retrato para envelhecer por ele ou esconder seus pecados. Encarando sua imagem, viu sua alma enegrecida, envelhecida e amaldiçoada por todos seus erros. Abriu as portas que não deveriam ser abertas e manteve fechada as que deveriam ser abertas. Suas rugas eram páginas que ele não queria folhear.
Voltou para sua poltrona, conquistada com a desgraça de muitos, como grande parte de sua fortuna. Sentiu que não poderia mais sair de lá. Nunca mais. Não porque suas pernas não tivessem um resto de forças, mas porque estava velho: velho demais para mudar a história daquelas folhas. Estava sentada a beira de sua própria cova, as pernas balançando, só esperando que os anjos que entoavam aquela canção triste ao fundo o empurassem lá pra baixo.


Até a próxima.
Ao som de ... Radiohead - Let Down.

2.9.06

_ Um sábado de sol.

Meu último post foi a tanto tempo! Em alguns dias pensei em postar, a preguiça foi maior ou o tempo curto demais. A vida tem passado, mudado opiniões. Incrível como tem gente que literalmente fode com nossos conceitos e no lado totalmente oposto, tem gente que surpreende.

_ Decisões.

Uma época de decisões, muitas decisões. Queria ter uma bola de cristal para saber onde elas vão me levar ou talvez ler pensamentos... acho que não sou só eu que gostaria dessas coisas bem utéis. Será que existe decisão errada?

_Mais sagrado que o próprio rito, era a última bolacha.

É possível esquecer o amor? E a culpa? Ou apenas se acosuma com a presença de uma e a falta do outro?

Uma breve história de chá, biscoitos e remorso.
Final
A manhã seguinte amanheceu lá pelas duas horas da tarde para ela. A ressaca moral e física estava difícil de agüentar. Mas a culpa não fora dela ... fora das tequilas! Gostava do namorado, de verdade. Amor, aquela coisa bem de filme, mesmo. Casal bonito eles formavam. Agora era esquecer, afinal naquela tarde teriam chá com biscoitos. Sagrado rito do amor. Ele chegou com uma expressão de ressaca fabulosa. Parecia ter passado por uma noite péssima, vomitado até a alma. Falou pouco, parecia triste. Ela o vira assim apenas duas vezes: quando não passara no vestibular e quando perdera o emprego. Felizmente ele passou em uma faculdade melhor e hoje ganhava mais. Beberam e comeram, em silêncio pós-balada-noite-mal-dormida. Ela não conseguia sorrir para animá-lo e ele sequer tinha vontade de olhá-la. Então, o pacote de bolacha, era domingo de morango, jazia na mesa com apenas uma. Mais sagrado que o próprio rito, era a última bolacha. Na tentativa de vê-lo mais alegre, ela ofereceu a preciosa guloseima e ele, com o a expressão mais fechada que nunca, recusou.
_ Eu estava lá. Eu vi. Você me traiu.
As palavras dele pesavam com o chumbo, definitivas e irrevogáveis. As explicações dela pareciam algodão na ventania e de nada adiantaram. Ele não quis saber, era um erro e acabou. Imperdoável. Retirou-se para nunca mais voltar e o biscoito ficou lá, largado na mesa.
Muitas pessoas nunca mais comeriam chá com biscoitos. Mas ela não. Comeu biscoitos de, ora morango, ora chocolate, e tomou chá todas às tarde de domingo de sua vida. Pois o amava na época e continuo amando-o sempre. Soube de sua nova namorada, da outra e finalmente quando noivou e depois se casou. Ouviu dizer que o filho era lindo também. Ela se casou, teve filhos e uns netinhos lindos. Mas o domingo a tarde era só dela: chá e biscoitos. E ela nunca comia o último. Nunca.
Próximo post, conto novo. Vou ver se escrevo algo novo! Se eu arranjar tempo ...

29.7.06

_ Here we goooooo again!

Minhas aulas começam segunda. E eu vou estudar e vou passar naquela porcaria. Que dose de otimismo. O que certas coisas não fazem pela gente!


_ ela amava os de chocolate e ele, os de morango.

O hábito. O amor. Quantas coisas chatas fazemos com que amamos... e elas se tornam doces, preciosas! Ou um pé no saco

Uma breve história de chá, biscoitos e remorso
Pt.1
Ela era um serzinho contagiante. Não que fosse linda, mas também não era feia. O que marcava mesmo era sua alegria ingênua e praticamente explosiva com que convivia com as pessoas. Seu sorriso era espontâneo e irresistível, não que fosse perfeito. Esteticamente pobre, era dono de segredos mágicos e cativantes. Ele, beirava a normalidade, não fosse ser um dos últimos homens corretos, honestos e fiéis. Não, não era monótono, pelo contrário, era muito imaginativo e divertido. Também tinha um coração extremamente bom. E juntos, formavam um casal feliz.
Ela amava com a esperança sonhadora dos primeiros romances, que apesar de alguns tropeços, era puro e completo. Ele amava com a cautela de um amante já conhecedor dos labirintos e armadilhas da vida, mas com a intensidade de um bravo lutador. E eles se amavam de forma bonita, um casal risonho de dar inveja. Passeavam por aí, de mãos dadas e almas entrelaçadas.
E gostavam de chá com biscoitos. Sem falta, religiosamente, ele comparecia a casa dela, todas as tarde de domingo, para degustar daquele delicioso hábito. O chá, ela que fazia, com todo carinho e cuidado. Às vezes variava-se o sabor, mas a xícara não. Os biscoitos eram trazidos por ele. Seu sabor também costumava diversificar, pois ela amava os de chocolate e ele, os de morango. Mas nunca misturavam os sabores: um domingo era morango, o outro, chocolate. Enquanto saboreavam seu saboroso chá da tarde, conversavam, riam. Assunto não faltava, pois ela falava mais que a boca e ele pelos dois. Quando a conversa acabava, olhavam da xícara quase vazia para os últimos biscoitos restantes e depois um para o outro. E caiam na risada, pois tudo aquilo era excelente e ambos estavam realizados: chá, biscoitos e a companhia um do outro.
Mas tudo que é bom, como os biscoitos de morango ou chocolate, um dia acaba. E nem sempre o último momento é bom como a última bolacha do pacote; ás vezes é desagradável como o pozinho que resta no fundo da xícara ao fim do chá. Ele gostava de beber, ela não. Ela gostava de balada, ele não. Nenhum dos dois gostava de dançar, mas ambos decidiram sair com seus amigos e cada um foi para um lado. Porém, naquela noite ele decidiu não beber, queria ficar sóbrio e dar risadas com os amigos. Ela, foi desafiada a “virar” algumas doses. Foi aí que ela descobriu que gostava de beber e como não estava acostumada... o álcool subiu rapidinho e logo estava “altinha” e contente, dançando como uma bela gansa desengonçada. Não que isso importasse, porque quem gosta, gosta até mesmo de uma gansa dançarina. E aquele estranho amigo gostava. Era a grande chance que esperava, poderia tentar algo... tirar aquele namorado chato do caminho! Então, sem perder tempo, ele agarrou a gansa e a beijou. Ela só foi perceber que tinha parado de dançar depois do terceiro beijo. E até, ele pensou, que para uma gansa bêbada, ela beija bem.
Continua ....

23.7.06

_ Fim de férias.
Está quase no fim... E eu não fiz nada de útil. A não ser adotar meus filhos, que cada dia que passa estão me deixando mais felizes. Estou decepcionada comigo mesma, com algumas pessoas, pra baixo mesmo. Que hora de ficar assim, na cara do próximo semestre, energia, energia, eu preciso me animar...
_ Queria ser uma fofa e branca nuvem para ser acolhida naquele céu azul infinito que eram seus olhos.
Não sei qual será o próximo, preciso escolher. Meu projeto anda indo bem, já escrevi um dos contos. E agora, finalmente, a última parte desse conto. Jaqueline terá seu conto realizado...
Para saber como acaba, tem que ler até o final.
Final

Duas semanas depois, Jaqueline acordou com a estranha sensação de já ter visto aquele dia. Aquelas cores perfeitas pintadas no céu, o ar leve e perfumado. Na escola, não parava de pensar no garoto, naqueles olhos, naquela voz... Seus amigos começaram a interrogá-la. Ela ria alto e se esquivava das perguntas... pensou que era tão bom que... Gelou. Correu à mala e vasculhou seus papéis, cheios de corações e contas misturadas quando finalmente achou. A professora de geografia entrou na sala em seguida, avisando que tinha trocado a aula com o professor de química que tinha inventado de fazer experiências no laboratório. O queixo da menina caiu discretamente enquanto pegava sua apostila de geografia.
Os minutos se arrastavam e Jaqueline queria sair correndo dali. Era verdade, verdade! Na saída, lá estaria ele, lindo, ai, deveria estar de preto como no conto. O sol bateria nos seus cabelos castanhos e perfeitamente desarrumados. Como era mesmo aquela linha? “Queria ser uma fofa e branca nuvem para ser acolhida naquele céu azul infinito que eram seus olhos.” Logo não precisaria ser nuvem alguma, quando estivesse nos seus braços... O sinal tocou, ela pulou da banqueta e saiu em disparada, só esperando. Não saberia o que dizer, oras, nem surpresa era! Mas não poderia culpá-lo, fora ela quem tinha escrito tudo aquilo. Seu coração batia tão forte que nem andar seria preciso, seria arrastada pelo desejo e pelo próprio destino. Antes de cruzar o portão, respirou fundo, tão ansiosa que chegava a tremer. Agora, agora...
O sol ofuscou sua visão por alguns segundos e então avistou. Lindo como em seus sonhos, perfeito como suas palavras nunca poderiam descrevê-lo. Ficou parada, só olhando, ele ainda não a tinha visto. Como ele estaria se sentindo? Ansioso? Quanto ele deveria amá-la? O bastante para estar ali, de preto como descrevera. Jaqueline sorria tanto e podia realmente ouvir pássaros cantando a mais bela canção de amor que o meio dia poderia oferecer. Teve o impétuo de ir correndo e se jogar nos braços dele, mas decidiu parecer surpresa, oh, você por aqui? Estava dando o primeiro passo quando aquele sorriso esplêndido enfeitou o rosto tão amado. Mas ele não olhava em sua direção, mas sim para o portão. Uma jovem do outro lado parecia retruibuir, apesar de envergonhada. Ele se adiantou, tomou-a nos braços num abraço que Jaqueline escrevera, apertado como seu coração fraquejante estava. Depois de algumas palavras trocadas, ele a beijou, o beijo cinematográfico que era dela! Seu corpo estremeceu e uma e depois outra lágrima cruel rasgaram seu rosto. Apertou o passo, escondeu o rosto e partiu para casa. Ao chegar em seu quarto, jogou da gaveta todos seus manuscritos, inclusive seu melhor que estava entre os dedos, amassado e frustrado e rasgou um por um. Dos mais simples, onde fadas beijavam o oceano sem nunca se afogarem até a primeira desilusão amorosa. Nunca mais escreveu uma linha sequer. Era uma princesa que se deixava consumir pelas chamas de um incêndio cruel.
Espero que gostem ^^

15.7.06

_ Squeeze!

Adotei dois gerbils lindos na quinta. Estava tão ansiosa pela chegada deles, pesquisando, vendo um monte deles... E agora eles estão na bagunça que podemos chamar de lar, puxaram pra mim, como pode-se ver, dormindo ou comendo deliciosas sementes de girassol. É uma sensação ótima cuidar de criaturinhas tão alegres, indefesas e sociavéis. Tudo bem que o Berquélio ainda acha que minha mão é uma semente gigante e albina de girassol, mas...

_ As delícias e horrores da primeira vez.

A adolescencia é ótima por isso... Se faz tantas coisas pela primeira vez! E bom ver coisas que você nunca achou que se realizariam acontecendo. Acho que quando se fica mais velho, essas coisas rareiam ou passam despercebidas, o que seria uma pena. Mas por enquanto, elas estão apenas ficando mais intensas, mais vivas e grudando na memória de forma absurda. Acho que essa é a que torna a adolescência ainda melhor que a infância... a consciência que é a primeira vez, poxa, é a primeira vez! Como andar a 50 km/h naquela estradinha, uhu, emoção, adrenalina! E depois quase arrancar o portão da casa da sua vó... pequenas coisas ... as delícias e horrores....

_ Projeto estranho ....

Estou com um projeto de contos, bem interessante a princípio, na cabeça. Começo a escrever hoje, depois de atualizar isso aqui e arrumar essa porcaria de PC, que sem ele eu não vivo. Aguardem, talvez eu poste aqui, talvez não. Mas dou notícias.

_ ... a doçura e inocência de quem nunca chorou por amor ...

Ah, o amor é a melhor inspiração? Jaqueline se enche de esperança e prepara sua obra-prima! Penúltima parte!

Para saber como acaba, tem que ler até o final.
Pt. 3

Havia um conto recente que tinha escrito. Sobre dois jovens que se conheciam na internet e viravam namorados. Este seria um ótimo desejo para se realizar. E sem dúvidas, se realizou. Uns três meses depois, mas estava quase comprovado seu “poder psíquico”. O garoto era um pouco diferente do idealizado, mas parecia ainda mais atraente, talvez pelo simples fato de ser real. Saíram duas vezes e Jaqueline já estava totalmente apaixonada. Aos 16 anos, qualquer coisa parece irresistivelmente apaixonante! Então, decidiu testar definitivamente a mágica que parecia acontecer quando escrevia. Juntou um monte de folhas, respirou fundo e sentiu-se a princesa arregaçando as mangas do vestido e empunhando sua espada.
As palavras saltavam direto de seu coração adolescente para a caneta, sem passar pelo cérebro. A história tinha o ritmo doce de uma tarde perfeita de primavera sem nuvens no céu, a doçura e inocência de quem nunca chorou por amor e a vitalidade de quem tem todo o tempo do mundo para viver. A prima de Jaqueline com certeza diria isso da estória e se encheria de orgulho. A melhor de todas. Começava com uma manhã lindíssima, sem sono e sem cansaço, na escola. A protagonista, que com certeza era Jaqueline, além de prestar atenção na aula, viajava em sonhos românticos com o garoto de seus sonhos que agora estava tão perto que poderia ser dela. Só de passar os olhos pelas linhas, pela primeira vez, muito bem escritas, podia-se sorrir. Todos comentavam que estava apaixonada, e ela, tímida, negava e não dizia coisa alguma. Era tão bom, que se escapasse da prisão ardente que era seu coração, poderia estragar. As duas últimas aulas trocavam de posição, pois o professor faria uma experiência no laboratório. Na saída, com passarinhos felizes cantarolando, coisa meio complicada de acontecer na bagunça que era aquela cidade, a cheia de alegria protagonista respirava fundo e do outro lado da rua esperava seu príncipe encantado. Sorria, com aquele jeito encantador, seus olhos tão azuis quanto o céu. Ele tinha vindo só por ela, pedi-la-ia em namoro. O conto acabava num lindo beijo cinematográfico. Ah, os sonhos, os sonhos.
Continua ...

8.7.06

_ Layout novo.
Espero que agrade, eu gostei bastante. Pena que ficou um espaço em branco muito grande do lado. No próximo layout eu tomarei mais cuidado.

Daqui a alguns dias eu posto a próxima parte do conto.

7.7.06

_ Férias.

Tempo de relaxar. Quero fazer tantas coisas, mas nada de ficar planejando, prometendo. Vou deixar as coisas acontecerem. E elas acontecem.

_ Layout.

Estou planejando um layout novo. Esse verde já cansou minha beleza. Além do mais, não já é época de primavera, tanta coisa mudou por dentro que por fora merece mudar também, não acham? Aguardem.

_ ....em bosques tão verdejantes que nunca conheceram inverno.

Já teve a sensação de "prever" o futuro. Simplesmente saber o que aconteceria? Será que isso realmente pode acontecer? Acho que todo mundo já parou pra pensar nisso, pois o futuro é uma coisa tão fascinante...

Para saber como acaba, tem que ler até o final.
Pt 2

Não, Jaqueline nunca escreveu nada tão “grandioso”. Suas estórias eram todas otimistas e simplistas. Até uns 14 anos, escrevia sobre o fantástico. Bruxas malvadas que invejavam princesas, fadas que se apaixonavam por garotos que adoram andar em bosques tão verdejantes que nunca conheceram inverno, fantasmas em busca de paz e redenção, animais que conversavam com seus donos e davam melhores conselhos que humanos. Mas logo os temas se esgotaram e ela se viu adolescente, cheia de coisas divertidas para contar e fantasiar. Podia criar mundos onde ela era o que queria ser e fazer o que bem entender. Roubar corações, ter todos os amigos, ser rica e famosa. Começou a escrever, coisas tolas, que ela achava um máximo. Um dia, se deparou com um fato que a levou a vasculhar seus rascunhos e a assustou tremendamente. A estória que chamou sua atenção foi sobre uma menina que estava muito afim de um garoto duas séries a frente. Mas a suposta melhor amiga o roubava. Fato comum, mas o intrigante é que aconteceu exatamente a mesma coisa dois meses depois. Porém, quando escreveu, não havia garoto duas séries a frente, tão lindo como aquele. Um tempo depois, a inspiração de Jaqueline a levou a escrever uma estória muito bonitinha sobre uma garota que perdia um livro, de capa vermelha, e quem achava? O menino mais bonito da sala! Um mês depois, a professora falou sobre um livro de poesias que havia na biblioteca, atiçando a curiosa paixão literária de Jaque. Coincidentemente, sua capa era vermelha, vermelho paixão ardente. Só que suas poesias eram complicadas e profundas como ela ainda não era e não podia sentir. Quando sua amiga chamou para ver o jogo de futebol dos meninos do último ano, saiu correndo e o livro foi esquecido. Na semana seguinte, já em pleno desespero por ter que pagar outro, aquele menino lindíssimo veio devolvê-lo. O vermelho sangue ficou tímido perto das bochechas rubras de vergonha e felicidade da jovem. Duas coisas escritas, duas coisas realizadas. E tinha mais ... o conto sobre a prova de matemática bem sucedida também tinha se tornado realidade. E sobre uma jovem que contava a história de como uma prima poeta tinha arranjado o homem dos sonhos na fila da padaria. Apesar da falta de talento, Jaqueline podia prever o futuro nas linhas de suas fantasias cotidianas? Seria ela uma espécie de... vidente? Poderia desejar coisas e estas acontecerem?



Continua .....

25.6.06

_ Idéias, idéias ... mudanças, mudanças

Quanto tempo sem escrever! Mas bem, férias daqui a pouco e eu posso me dar ao luxo de ganhar um tempinho aqui. Fazia tanto tempo que eu não escrevia ... pior que estou cheia de idéias. Mas outro dia eu tive que parar pra escrever esse conto ... Porque escrever é um alivio tão grande, uma coisa que me dá força, um "talento" que me faz sentir especial. Mesmo que eu não seja uma escritora tão boa como eu gostaria. Mas com o tempo eu melhoro. Nas férias, espero escrever todos os que estão só no rascunho, ler todos os livros e fazer todas as provas da UNESP! Deu pra perceber que estou otimista rs Meu humor anda oscilando tanto ... mudanças....

_ E a escada, era tão longa que ela demorou quase meio dia para subir ...

Essa história me fez deixar a apostila de literatura do cursinho de lado, no ônibus, e ficar olhando para as pessoas na rua, o céu azul, as casas... e escrever. Porque papel e caneta ou um teclado e uma tela não são nada para quem tem necessidade de escrever, a qualquer hora, qualquer lugar.

Para saber como acaba, tem que ler até o final.

Pt. 1

Tinha aprendido com a prima mais velha. Ela sim era boa, escrevia muito bem, tinha talento e o espírito. Jaqueline já escrevia por hábito, porque era a brincadeira preferida desde pequena. A primeira estoriazinha que tinha escrito era sobre uma florzinha que gostava do vento. Mas a verdade é que ela não levava jeito para a coisa. A prima continuava lendo, mesmo depois de crescida, e apoiava. Gostava da simplicidade e beleza das fantasias infantis da priminha e achava que, talvez, suas histórias amadurecessem e ficassem mais atrativas. Coisa que jamais aconteceu.
Ela começou quando tinha nove anos, depois de ouvir uma história fantástica da prima. Falava de uma princesa que ia salvar um príncipe das mãos malvadas de um bruxo invejoso. A princesa era tão heróica e cheia de coragem que dava gosto, imaginar uma garota com seus 17 anos, com aqueles vestidos longos e maravilhosos dos filmes, no meio de uma luta de espada. E a escada, era tão longa que ela demorou quase meio dia para subir, descalça. Pensar nos pés delicados e pequenos de uma princesa subindo a escada pedregosa e tortuosa era tão emocionante! Devia ter lido umas dez vezes aquela história, principalmente depois de crescida, para ver se a coragem daquela heroína idealizada lhe dava alguma força. No final, acordava o príncipe com um beijo de amor verdadeiro e eles fugiam do castelo em chamas, olha, ainda tinha a fuga de um incêndio! Mas dessa vez, o príncipe é quem fazia as vezes de herói e a princesa podia voltar a ser frágil e delicada como todas elas eram. A prima nunca contara, mas tinha mudado o final de seu conto de fadas sem fadas especialmente para sua priminha. Contar-lhe o final verdadeiro seria destruir as ambições românticas e literárias de uma meninha e mesmo que fizesse isso depois que Jaqueline crescesse, o efeito seria o mesmo. No final real, a princesa ao chegar à torre, acordava o príncipe, que com o orgulho ferido por ser sido salvo por uma mulher e por vê-la cansada, machucada, com uma aparência nada atraente, apesar de vitoriosa, rejeitava-a e sem sequer dizer obrigada, saía do castelo. A princesa, desolada, fez da torre sua tumba e ardeu até que a paisagem acabasse no completo silêncio e aquele príncipe ingrato se perdesse no horizonte em seu cavalo branco.

Continua ....

5.3.06

_ O fim do sossego.

Sim, eu fiquei três meses em merecidas férias e perguntem se eu postei alguma coisa aqui? Não, é claro que não! Por que? Bem, não me pergutem. Eu tive todo tempo do mundo, muitas e muitas coisas aconteceram. Várias coisas que mereciam um lugar aqui, um comentário, uma reflexão, um minutos perdidos para pensar e outros para digitar. Pois, é mais eu não fiz nada disso. Mas pretendo voltar a fazer... porque a rotina volta. Cursinho, agora alemão e quero postar no meu blog fantasma. Escrever, exercer ... sabe como é, vestibular merece uma redação bonita e nada melhor que treinar para chegar a perfeição. Aliás, o meu único orgulho naquela porcaria de prova é que na de português eu fui razoavelmente bem. Mas a redação me colocou em apuros. Era sobre felicidade... como eu poderia falar de felicidade quando eu me sentia o ser mais fracassado do mundo? Era fácil, mas organizar as idéias quando você já perdeu toda a esperança é complicado. Mas até que me sai bem. Porém, esse ano ... vai ser bem melhor. Sim, eu dei a volta por cima ...

_ Era o dia mais feliz de sua vida?

A felicidade explodia em seu corpo como algo que ela nunca imaginara. Felicidade boba, do nada ... perfeita. Mas ... e os poréns que a vida nos reserva?

Otimismo
* Pt.Final *

Ela deu uma risada alegre, espontânea, que faria naquela tarde? Estava começando a ficar atrasada e se o ônibus demorasse mais do que o costume? Ela não se importava, não, não...Não queria nem saber. Era o dia mais feliz de sua vida? Não, era a época mais feliz da sua vida, felicidade, felicidade... a palavra parecia deslizar pelo seu corpo, enchendo sua boca de sorrisos e risadas e canções e sonhos... era amada e amava, estava saudável, estudava e trabalhava nas coisas que gostava, finalmente terminara de arrumar sua casa que agora podia chamar de lar, seus amigos estavam todos se arrumando na vida e quando se reuniam eram somente risadas e planos, sua mãe tinha parado de brigar com seu irmão mais velho e os negócios de seu pai iam bem. Era bom ser feliz e estar consciente disso. Era bom, era um dia ótimo, era um mês satisfatório, era a vida feita para ser vivida, cheia de altos e baixos e .... Como se sentia bem! Esticou o braço, pegou o xampu e suspirou, sentiu o coração repleto de alegria e... foi rápido. Seu pé escorregou, o corpo perdeu o equilíbrio e suas mãos ensaboadas escorregaram pelo azulejo procurando apoio, golpeando o ar. Seu corpo pesado bateu no chão e seus olhos se apertaram prevendo o pior. Ouviu o baque molhado de sua cabeça batendo na quina da banheira e por último, a felicidade escorrendo vermelha por um corte profundo perto da nuca.
...... fim .....
Fiquei feliz por esse conto. O final é um choque, é rápido, assim como tudo pode terminar. Espero que meu público fantasmagórico goste! rs

29.11.05

_ Puf.

Está acabando comigo estudar tanto. Quer dizer, lutar para estudar. Porque estudar mesmo, está díficil. Mas ainda mais complicado é lutar contra um dos meus piores inimigos. Não, não é a disputa acirrada de 64 almas (sedentas por conhecimentos e um lugar ao sol)por vaga e nem contra o tempo que parece ficar cada vez mais curto... É contra mim. O modo irritante como me cobro de uma maneira cruel. Nunca me basta estar na média, preciso me destacar, ser a melhor. Que ódio. Não consigo colocar na cabeça, entre logaritmos e os malditos mols e espelhos concâvos que eu não POSSO SABER TUDO. Que por mais que eu estude, eu NÃO VOU SABER. Vestibular é cruel, mas entrar em conflito com tudo que você é... isso sim dói. Dói mais que minhas costas depois de passar o dia inteiro debruçada sobre uma maldita carteira de colégio. Sim, tempestades no copo d´água. Eu sou assim e tenho que aprender a lidar com isso! Estudando pra passar ... no vestibular da vida. Talvez eu tenha que estudar um pouco mais. Puf.

_ Otimismo.

Um dia daqueles. Um dia feliz. Sabe? Então, esse conto é sobre esse dia, que acordamos pra sorrir.

Otimismo.
*Pt. 1 *

Ligou o chuveiro. A água caiu sobre seus ombros e ela se encolheu um pouco, dando risada. A água quente foi encharcando seus cabelos longos, fechou os olhos, só ouvindo o barulho da água caindo na banheira e escorrendo lentamente. Olhou pela janela e nem fazia um dia tão bonito assim. A tempestade da noite passada tinha deixado o céu tristonho e cinzento e o ar úmido. Mas ela não estava nem aí para as nuvens pesadas que caminhavam vagarosamente pelos céus pois estava feliz. Ela não sabia como e nem porquê, mas sorria. Não estava tudo certo, era bem verdade. O preço das coisas continuava aumentando e o governo estava uma bagunça. Ela tinha muitas coisas para fazer, seu quarto estava bagunçado e ainda não tinha achado aquele livro que sua mãe pedira. Também continuava acima do peso e aquela blusa que ganhara do namorado de natal ainda não servia. Mas nada disso importava, ela estava feliz! Pela primeira vez na vida estava ali, debaixo da água, lavando os cabelos e sorrindo. E não era só um surto, aquelas coisas que a gente tem quando acontece algo muito bom de repente, sabe, quando sorrimos e cantamos e pulamos e o mundo parece todo feito pra gente. Era uma coisa estranha que envolvia seu corpo e sua alma, apertava-a de uma forma confortável, porque tudo estava bom, muito bom... Não perfeito, porque nada nessa vida é perfeito, mas...

Continua ...

4.10.05

_ Será essa metamorfose inversa?

No post anterior, apenas escrevi o que minha consciência gritava. Mas o tempo foi passando e sabe, acho que não estava em minhas mãos o poder cuidar da metamorfose, porque nesse caso, parece-me que não foi a lagarta que virou borboleta... Mas a borboleta que virou lagarta. Ou será que nunca existiu borboleta? Mas agora, não me interessa mais ... É passado. Deixemos as borboletas, lagartas e metamorfoses se perderem pelo caminho... Distantes de mim.

_ ... Acordou era um belo fim de tarde, fim da luz do sol no azul do céu, fim de tudo.

Finalmente, o final de Mil horas. Tenha paciência ... é longo, mas se você for ver... É curto. Terrivelmente curto.

Mil Horas
* Parte 7 - Final *

Acordou era um belo fim de tarde, fim da luz do sol no azul do céu, fim de tudo. Tomou um banho, penteou os cabelos, perfumou-se. Estava pronta, finalmente pronta, depois de tanto tempo... Arrumou a cama, lençóis brancos e macios. Apagou as luzes da casa, mas deixou a janela meio aberta para o ar frio entrar. Mexeu nas gavetas e achou a lâmina... Suspirou e lembrou-se de tantas vezes que a encarou, questionou-se, achou em algum lugar esperança e deixou para depois. Mas agora a esperança estava em acabar com tudo, pois ela estava condenada a ser triste. Se não fosse agora, seria depois. E bastava, bastava. Sentiu dor, mas não se importou... O sangue escorreu pela pele pálida tão vivo, trazia nele tanta esperança... Deitou-se na cama e fechou os olhos, agora não tinha mais volta. Sorriu, faltava pouco... Bastava, bastava. Aqueles últimos momentos de um dia de mil horas correriam rápidos, teriam apenas dois segundos. A dor aumentava, os lençóis tornavam-se vermelhos, a morte vinha devagar, beijar-lhe carinhosamente as faces mais pálidas que nunca. Perdeu a noção dos minutos. Estava perto... Bastava, bastava... Os sentidos foram ficando fracos, afastando-a do mundo... O telefone tocou ao longe... E tocou, tocou. A secretária eletrônica atenderia e guardaria o recado, que infelizmente ela nunca responderia.
_ Alô? Alô... Atende, por favor. Eu sei que você está aí.
A voz trouxe-a de volta para esse mundo mortal. Sentiu a dor intensa e tentou falar alguma coisa, mas sua voz morria junto com ela. Era ele.
_ Não vai me atender mesmo? Atende vai... Tudo bem, eu falo com a secretária eletrônica mesmo... Eu sei que você está me ouvindo de qualquer forma.
Sim, ela tinha voltado só para ouvi-lo. Queria atendê-lo, dizer-lhe tantas coisas... Tentou sair da cama, lutava contra a morte... Só precisava de mais uns minutos, custava esperar?
_ Preciso pedir desculpas, isso estava me matando o dia inteiro, você nem sabe como foi minha noite, sem dormir, só pensando. Tive medo de chegar aí e você não estar ou fechar a porta na minha cara. Mas... Desculpa, perdoa-me. Agi tão errado, como um idiota. A culpa não é sua... Eu só lhe quero bem, eu te amo tanto! Vai, atende esse telefone logo...
Ela estava tentando, juro. Mas as pernas estavam fracas e a escuridão não ajudava. E sangrava tanto! Só mais alguns míseros passos até o telefone...
_ Vou passar aí daqui à uma hora. Antes vou comprar-lhe umas flores bem bonitas, vermelhas como você tanto gosta. E se você me perdoar, vou te encher de beijos e nunca mais vou fazer você chorar. Você será a mulher mais feliz do mundo...
Eu fui a mulher mais feliz do mundo, pensou. Sorriu, apesar da dor. Afinal, ainda existia em alguma parte dela, uma alma. A mão suja de sangue caiu sobre o telefone.
_ Alô, você está aí mesmo?
_ Eu...
_ Você está bem?
_ Eu... Te... Amo...
O telefone escorregou de sua mão. Seus joelhos não suportaram o corpo e o corpo não podia mais sustentar a alma. Caiu, fechou os olhos e tudo que ela queria eram mais mil horas para tentar tudo de novo.

Fim.